Na manhã de sexta-feira (27 de março) a Concha Acústica Vicente de Carvalho acordou diferente. Havia fila. Fila de verdade, antes das 8h30, num equipamento público que ficou fechado por 20 anos e que, desde sua reabertura em 2015, acumula histórias. Hoje ganhou mais uma.
Cerca de 300 pessoas ocuparam o espaço aberto às margens do Canal 3 para a maior edição do CreativeMornings Santos desde a fundação do capítulo, em fevereiro de 2024. Foram 478 inscritos e um recorde que transformou Santos na maior edição do CreativeMornings no mundo no mês de março. Em 250 cidades, em 70 países, nenhuma reuniu mais gente do que a cidade que também escolheu o tema global.
Fotos: Gustavo Nascimento
A organizadora Ludmilla Rossi, CEO da Juicyhub notou o inusitado logo na abertura.
“Eu nunca havia passado aqui cedo a essa hora da manhã e visto fila na Concha Acústica.”
Por que Santos pautou o mundo
O tema LOCAL não foi sorteado. Foi proposto pelo capítulo santista e adotado por 250 cidades em 70 países neste mês de março. De Roma a Tóquio, de Nova York a Paris, todas as edições do CreativeMornings de março giraram em torno de uma palavra escolhida aqui, na Baixada Santista.
A inspiração veio do geógrafo Milton Santos, que completaria 100 anos em 2026.
“Local é identidade mais território”, explicou Ludmilla, parafraseando o pensador baiano. “E no fundo, é onde o bicho pega. É onde a economia, a felicidade, as nossas relações acontecem.”
Um detalhe que amplifica tudo isso: não foi apenas o tema que veio de Santos. Foi também o maior evento do movimento no mundo neste mês.
Como disse Thiciane Lins, vice-reitora da São Judas, no palco: “Tinha que ser Santos.”
A cidade que promove encontros
Antes da palestra, o palco recebeu vozes que ajudaram a construir o evento. E cada uma delas trouxe um pedaço do que significa apostar em Santos.
André Falchi, Diretor do Escritório de Inovação Econômica da Prefeitura de Santos, representou a Secretaria de Comunicação e Economia Criativa no evento. Geógrafo e historiador de formação, revelou ter tido aulas com o próprio Milton Santos na USP.
“Estar aqui com vocês é uma honra muito grande. A Prefeitura participa de um momento como esse com orgulho.”
Ludmilla aproveitou para fazer um elogio sincero:
“Eu acho difícil existir no Brasil uma prefeitura tão engajada com economia criativa. Acho que nem São Paulo faz o que Santos faz, de verdade.”
Quem acredita antes de ver
A edição histórica só foi possível porque parceiros apostaram na ideia. E eles subiram ao palco para contar o porquê.
Thiciane Lins, vice-reitora da Universidade São Judas Campus Unimonte, que se tornou mantenedora do Juicyhub a partir de janeiro de 2026, resumiu a parceria com a franqueza de quem entendeu rápido.
“Quando eu conheci a Lud, eu falei: é isso. A gente precisa de alguns loucos assim para pensar fora da caixa.”
Ela também adiantou que o próximo CreativeMornings Santos já tem data marcada para 17 de abril, com chances de acontecer no campus da São Judas.
Breno Lucena, dono da SB7 Som e Luz e mantenedor do Juicyhub, contou como aprendeu a ter orgulho de ser de Santos mesmo quando o mercado de São Paulo duvidava.
“Será que eu pego um telefone 011 para mostrar que eu sou de São Paulo?”, lembrou ele, rindo do próprio dilema do passado.
A resposta que encontrou foi outra.
“Nós somos de Santos, nós temos orgulho de ser daqui.”
Para ele, o Juicyhub representa exatamente esse posicionamento.
“O que eles fazem pela nossa cidade, com conhecimento, não existe lá fora.”
Karine Teixeira, sócia do escritório Cursino e Teodoro Advogados, também mantenedor do Juicyhub, conectou o tema do evento à própria infância no subúrbio do Rio.
“Meus avós pegavam um banquinho e colocavam na calçada. E eu sinto que a gente perdeu esse senso de comunidade.”
Para ela, Santos, através do Juicyhub, está fazendo o movimento inverso.
“Olhar para o lado, olhar para o que está aqui.”
Aline Freire, gerente de marketing da Rede Krill, responsável pelo coffee do evento, reforçou a lógica do apoio ao local.
“Apoiar a cultura local é apoiar tudo o que está no entorno.”
O anúncio que ninguém esperava
No meio da abertura, Ludmilla guardou uma surpresa. E ela foi grande.
O CreativeMornings Santos só chegou à Concha Acústica porque, em novembro de 2024, uma marca global decidiu patrocinar o movimento. Essa marca é a Adobe, parceira global do CreativeMornings em todo o mundo. Mas o que veio a seguir foi além do esperado.
“A Adobe passa a ser mantenedora do Juicyhub”, anunciou Ludmilla ao público. “O Juicyhub agora é powered by Adobe.”
O que isso significa na prática: a Adobe estará presente em todos os eventos do Juicyhub. E, a partir de junho, o hub lança um programa de inclusão para designers voltado a jovens de periferia que sonham em atuar na área criativa, mas precisam de acesso e bolsas para isso.
Renata Decoussau, Diretora de Marketing da Adobe LATAM, subiu ao palco para falar sobre o que motivou a parceria.
“O argumento principal para uma empresa global como a Adobe poder patrocinar o Juicyhub é o mais humano e mais simples: o valor da presença, o valor da conexão.”
Para ela, a tecnologia escala conexões, mas não as substitui.
“Nada que é grande vai ser grande de verdade se a gente não estiver olhando para a criatividade que nasce de um lugar genu
