No bairro José Menino, em meio ao som das ondas e ao movimento constante de corredores e ciclistas, o jundu voltou a se destacar. Essa vegetação, que se apresenta como um denso emaranhado verde e rasteiro, é moldada pela brisa do mar e as condições climáticas, ressurgindo como parte da nossa paisagem. Isso evoca memórias de um litoral que há décadas não acolhia essa flora.
É nessa área onde Santos faz divisa com São Vicente que está prestes a ser implementado um novo projeto ambiental: o Parque Jundu.
Imagem conceitual do futuro Parque Jundu elaborada por IA/divulgação PMS
A iniciativa busca transformar um dos locais mais movimentados da região. Contudo, será que essa nova interação entre a cidade e a natureza é exatamente o que precisamos? Como será sua execução?
O que caracteriza a restinga?
O jundu é uma forma de vegetação típica de restinga, assunto já abordado extensivamente nesta matéria.
Comum nas áreas litorâneas do Brasil, essa vegetação é composta por gramíneas, arbustos e plantas rasteiras adaptadas ao intenso sol, ventos fortes e solo arenoso pobre em nutrientes. A restinga funciona como uma barreira natural para as zonas costeiras. Além de estabilizar as areias e prevenir a erosão, desempenha um papel fundamental no equilíbrio climático e abriga diversas espécies nativas.
No entanto, ao longo dos anos, grande parte dessa cobertura verde desapareceu das cidades litorâneas devido à urbanização acelerada. Segundo dados da Fundação SOS Mata Atlântica, a restinga figura entre os ecossistemas mais ameaçados do país, tendo perdido mais de 80% de sua área original em algumas regiões do Sudeste.
Em Santos, o jundu reapareceu de maneira espontânea, especialmente em uma seção da praia entre os canais 1 e 2 na área do José Menino. Esse fenômeno foi notado em junho de 2024 por estar crescendo em uma zona urbanizada e bastante frequentada. De acordo com a administração municipal, essa vegetação era predominante nas praias da cidade até os anos 1970 e sua reemergência ocorreu devido à redução do pisoteio humano na região, especialmente durante a pandemia quando o acesso às praias foi restrito.
Situação semelhante foi observada em Praia Grande.
Especialistas afirmam que esse retorno indica uma melhoria nas condições ambientais, permitindo um ambiente mais propício para a vegetação na faixa de areia. Em Santos, o jundu passou a ser monitorado e protegido oficialmente.
Parque Jundu: informações sobre o projeto
A proposta para o Parque Jundu começou a ganhar forma esta semana após passagens por estudos detalhados e discussões públicas envolvendo membros do Conselho Municipal da Defesa do Meio Ambiente (COMDEMA), ONGs, universidades e diversas secretarias municipais. O objetivo principal é estabelecer um espaço delimitado onde a vegetação de restinga possa prosperar com mínima intervenção humana.
A equipe já deu início aos trabalhos com a remoção de espécies invasivas e limpeza da área localizada em frente aos famosos edifícios “pé na areia”.
Foto: Divulgação/PMS
A próxima fase incluirá mapeamento da área designada, cercamento do espaço estabelecido e acompanhamento técnico para monitorar o crescimento do jundu. O local também servirá como “vitrine” para práticas de manejo ambiental, coleta de dados e iniciativas educativas envolvendo toda a comunidade.
O Parque Jundu integra o programa Santos Sustentável, lançado em 2025. Este programa já promoveu o plantio de milhares de árvores na parte insular da cidade e adota soluções baseadas na natureza (SBN) para lidar com questões como calor intenso, enchentes e mudanças climáticas no município.
Imagem conceitual do futuro Parque Jundu elaborada por IA/divulgação PMS
No presente momento, a área destinada ao Parque Jundu está em fase de implantação. Portanto, trata-se de um “parque aberto” no formato tradicional, sendo um espaço protegido voltado à recuperação ambiental.
Pode parecer um detalhe insignificante para aqueles que apenas transitam pela orla nos finais de semana; no entanto, essa proteção reflete um cuidado tanto com a cidade quanto com oportunidades para pesquisa. Além disso, tem potencial para proteger futuras gerações contra as consequências das mudanças climáticas enquanto cria possibilidades para educação ambiental diretamente à beira-mar.
