Nesta semana, o Miramar Shopping apresentou uma nova realidade ao perder mais um cinema, intensificando a percepção de carência cultural em Santos. O Cineflix, que por aproximadamente seis anos trouxe grandes lançamentos, festivais de cinema francês e obras internacionais, agora se encontra em um silêncio desconfortável entre as cadeiras vazias.
Foto: Divulgação Cineflix
As atividades do Cineflix foram encerradas no dia 30 de abril e, conforme informações preliminares, há a possibilidade de que o espaço seja ocupado por uma rede varejista de moda, substituindo as quatro salas de exibição existentes.
A rica história cinematográfica de Santos
A conexão de Santos com o cinema remonta a tempos anteriores à construção dos shoppings. Em 1897, apenas dois anos após a invenção do cinema na França, o Recreio Miramar, localizado no Boqueirão, já oferecia sessões de “fotografias animadas” que atraíam grandes públicos movidos pela curiosidade. Em 1905, a cidade contava com dois cinemas estabelecidos: o Bijou Theatre e o Cine Moderno.
Por várias décadas, Santos se destacou como um ponto de referência no litoral paulista para a cultura cinematográfica. As salas estavam presentes em diversos locais e o cinema era acessível para todos os cidadãos, não sendo restrito apenas à elite. Assim, o fechamento de uma sala representa mais do que um simples fim comercial; é um fragmento da memória cultural que desaparece.
O contraste com a realidade nacional
Enquanto o Cineflix entrega as chaves no Miramar Shopping, o Brasil alcança novos patamares no setor cinematográfico. No início de 2025, o país contabilizava 3.509 salas em operação, superando as 3.478 registradas em 2019 antes da pandemia.
Além disso, houve um aumento significativo de 26,3% no público frequentando cinemas nos primeiros meses de 2025 comparado ao mesmo período do ano anterior, com uma receita superior a R$ 1 bilhão — uma alta real de 22,2%. Enquanto todo esse movimento acontece nacionalmente, Santos observa a diminuição de suas salas.
Essa discrepância levanta questionamentos cruciais: se o mercado nacional está em expansão, quais são os motivos para a retração da oferta cultural na costa?
Duas salas fechadas em cinco anos
O fechamento do Cineflix não é um fato isolado. Em 2021, o Cine Roxy do Pátio Iporanga também fechou suas portas devido às consequências da pandemia. Dessa forma, são duas salas desativadas em um período de cinco anos numa cidade com mais de 400 mil habitantes.
Entretanto, a preocupação vai além dos números. O Cineflix do Miramar era conhecido por receber mostras e festivais internacionais que enriqueciam a programação local. Com seu fechamento, essa diversidade diminui consideravelmente; atualmente resta apenas o Cine Arte Posto 4 na Avenida Vicente de Carvalho como uma das principais opções para exibições alternativas na região.
Assim sendo, moradores que buscam uma programação diversificada podem ter que se deslocar até São Paulo ou optar pelo streaming — nenhuma dessas alternativas consegue replicar a experiência cultural local.
Custo para acessar cultura em Santos hoje
É fundamental analisar honestamente os impactos dessa situação. Os preços dos ingressos variam bastante no Brasil e podem oscilar entre R$ 20 e mais de R$ 80 dependendo da sala e da cidade.
Para uma família composta por quatro pessoas, os gastos podem facilmente alcançar R$ 200 em uma única visita ao cinema sem contar os custos adicionais como pipoca. Portanto, quando salas são fechadas em uma cidade, os primeiros afetados são aqueles que dependem da oferta local e não têm condições financeiras ou transportes para se deslocar até outras localidades.
O cinema sempre foi mais do que uma forma de entretenimento; ele representa um espaço onde pessoas dos bairros periféricos têm acesso aos mesmos filmes exibidos em todo o Brasil. É através desse meio que histórias globais chegam até aqui dubladas ou legendadas. Eliminar essa possibilidade não é algo trivial.
Transformações no espaço anteriormente ocupado pelo Cineflix
No local onde funcionava o Cineflix, há indícios da possível instalação de uma loja de roupas, refletindo uma tendência observada nos shoppings brasileiros onde espaços culturais são frequentemente substituídos por operações comerciais quando não geram lucro suficiente.
Não se trata aqui de criticar a chegada desse novo negócio — há também implicações positivas para a economia local. Entretanto, isso provoca uma reflexão sobre qual modelo decide as ofertas culturais disponíveis para os cidadãos. Shoppings têm como objetivo principal gerar lucro; surge então a questão sobre quem assegura acesso à cultura quando esta é considerada economicamente inviável?
E isso traz à tona outra discussão importante: qual deve ser o papel das autoridades públicas na promoção do acesso à cultura?
Possíveis soluções
Ainda não houve qualquer declaração oficial por parte do Cineflix ou do Miramar Shopping, mas observar o fechamento de cinemas fora dos centros urbanos não é um fenômeno isolado; faz parte de uma transformação mais ampla no panorama das exibições cinematográficas no Brasil. Nos últimos anos, nota-se uma crescente concentração do setor em complexos dentro de shoppings enquanto cinemas independentes enfrentam dificuldades severas para sobreviver.
Paralelamente existem políticas públicas direcionadas ao fortalecimento do audiovisual brasileiro incluindo linhas de financiamento focadas não só na produção mas também na distribuição e exibição dos filmes. Esses recursos têm sido utilizados em várias regiões do país visando ampliar o acesso ao cinema especialmente fora dos grandes centros urbanos.
No contexto específico de Santos, a recente diminuição das salas e a concentração da oferta nas poucas existentes reabrem um debate antigo sobre como garantir acesso à cultura em cidades grandes diante da lógica mercadológica predominante?
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