Do digital ao analógico: o crescimento do clube de pintura em Praia Grande

Enquanto alguns recorrem ao TikTok para relaxar, outros optam por atividades como acender velas aromáticas, fazer cuidados com a pele e planejar um momento de pausa apenas na próxima segunda-feira, mantendo o celular sempre à mão.

Em Praia Grande, um grupo de mulheres decidiu substituir as interações digitais por práticas manuais como pintura, crochê, colagem e conversas presenciais.

Assim surgiu o Off Lab, um espaço de criatividade idealizado por Camille Rocha, de 33 anos, que é graduada em Comunicação Social e estuda Pedagogia. Natural de São Paulo, Camille mudou-se para Praia Grande há cerca de um ano em busca de uma vida mais equilibrada e conectada à natureza. Ela encontrou essa conexão através da arte livre de pressões.

Essa iniciativa reflete o crescimento dos chamados clubes offline, que têm conquistado a Baixada Santista ao promover encontros presenciais que priorizam a criatividade e a convivência sem a necessidade de dispositivos digitais.

O Off Lab se apresenta como um alívio em meio à correria do dia a dia e ao bombardeio constante de notificações.

“Criar arte somente pelo prazer do ato criativo, sem a pressão por perfeição ou resultados, tem sido fundamental para mim. Isso também funciona como um exercício de autocuidado”, revela Camille.

Um espaço onde todos podem participar sem cobranças

No centro do projeto está o Art Rats, um grupo que promove desafios criativos diários sem competição ou exigências estéticas.

A abordagem é simples. Cada membro recebe um tema e pode criar livremente. As técnicas vão desde pintura e poesia até cerâmica, bordado e colagem. Mesmo aqueles que nunca pegaram em um pincel encontram seu lugar nesse espaço.

O mais interessante é observar como esse grupo se transformou em uma verdadeira comunidade afetiva.

Adolescentes compartilham inspirações com mulheres mais velhas; ceramistas ensinam iniciantes; há quem participe apenas para acompanhar as criações dos outros quando não conseguem produzir naquele dia. E isso é aceito com naturalidade.

“O grupo se comporta quase como um organismo vivo. As participantes trocam dicas, ensinam umas às outras e oferecem apoio constante”, comenta Camille.

A flexibilidade da participação transforma completamente a experiência. Não existe pressão para criar todos os dias, fazendo com que essa atividade não se torne mais uma obrigação desgastante na rotina.

Esse pode ser o verdadeiro segredo do sucesso do projeto.

O movimento offline ganha força na Baixada

Quem já passou horas rolando a tela do celular sem lembrar exatamente do que viu compreende bem o cansaço digital atual.

A sensação de hiperconexão tornou-se uma questão recorrente. Afinal, trabalhar, socializar e até descansar online tem gerado altos custos emocionais.

Nesse contexto, iniciativas como o Off Lab estão se tornando cada vez mais relevantes.

Camille observa que muitas mulheres buscam vivências mais autênticas e presenciais, especialmente em cidades litorâneas como Praia Grande, onde há uma relação mais íntima com o tempo livre e as interações coletivas.

Segundo ela, o ato manual devolve algo que as redes sociais frequentemente subtraem aos poucos: a presença real nas relações interpessoais.

“Passamos muito tempo conectadas às telas. Isso impacta nossas relações, nossa criatividade e até nossa autoestima. Muitas pessoas sentem falta de realizar algo com as próprias mãos”, afirma Camille.

Praia Grande transforma-se em ateliê coletivo ao ar livre

O Off Lab decidiu também evitar espaços fixos para suas atividades. Em vez disso, os encontros acontecem em diversos locais pela cidade.

Praias, praças e estabelecimentos locais fazem parte da rota do projeto. A proposta é transformar Praia Grande em um território criativo e fomentar experiências mais humanas nos ambientes urbanos.

O próximo encontro está agendado para o dia 24 de maio de 2026, no Bar do ET, das 15h às 20h.

Além da exibição das obras das artistas participantes, haverá também uma feira de artesanato feita pelas integrantes do grupo. A entrada será gratuita.

Camille ressalta que ocupar diferentes espaços também fortalece pequenos negócios locais e cria novas conexões entre artistas da região e a comunidade.

“No final das contas, nosso objetivo é utilizar a arte como uma ferramenta para conectar pessoas, promover presença e construir memórias afetivas”, conclui Camille.

A arte precisa sair do mundo virtual

Há uma dinâmica curiosa emergindo nas cidades da Baixada Santista.

Enquanto muitos buscam produtividade até mesmo nas horas livres, cresce também o número daqueles que tentam resgatar espaços de convivência mais lentos e humanos.

É possível que seja exatamente por isso que eventos como o Off Lab façam tanto sentido neste momento.

Porque criar algo manualmente continua sendo uma das raras experiências capazes de nos tirar do automático cotidiano.

Assim sendo, talvez a maior forma de rebeldia em 2026 seja reservar algumas horas longe da obrigatoriedade de transformar tudo em conteúdo digital.

Informações sobre o evento

Off Lab + encontro Art Rats

Data: 24 de maio de 2026
Horário: das 15h às 20h
Localização: Bar do ET (Avenida Marechal Mallet, nº97 – Praia Grande)
Entrada gratuita

Instagram do projeto: @off.lab013.

Novo desafio Art Rats: As inscrições para a próxima edição ocorrerão em julho e estarão abertas a todos interessados em criar e participar da comunidade.

By Santos Diário

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