“O Besnard voltou a respirar.”
Com essas palavras, Anderson Pomini, presidente da Autoridade Portuária de Santos (APS), expressou o alívio assim que o navio Professor W. Besnard emergiu após quase três meses submerso no estuário, na área do cais do Parque Valongo.
Foto: Gustavo Nascimento
A frase captura bem a sensação de alívio, mas omite um aspecto crucial da situação. O fato de ter voltado à superfície não significa que há uma solução definida para o futuro do navio.
Da lama para a superfície
A operação de resgate atingiu um marco importante com a reflutuação do navio, encerrando a primeira etapa desse processo iniciado em abril, que contou com o trabalho das bombas de sucção e a dedicação dos mergulhadores da Marfort Serviços Marítimos. Embora Pomini tenha celebrado o sucesso, ele se mostrou cauteloso ao comentar sobre os próximos passos.
“Toda a equipe da autoridade portuária e os funcionários da Marfort se dedicaram intensamente a essa tarefa. Como vocês viram, não é uma missão simples”, destacou.
A próxima fase depende de uma avaliação da Capitania dos Portos, responsável por determinar se o Besnard está apto para navegar até um estaleiro, um passo essencial antes de qualquer deliberação sobre sua restauração.
“Agora, esses estudos serão avaliados pela Capitania dos Portos, que tem a responsabilidade sobre a navegabilidade. A empresa já cumpriu seu papel principal, que foi reflutuar o navio”, esclareceu o presidente da APS.
Inteiro, fragmentado ou apenas na memória
No estaleiro, uma análise técnica irá responder à pergunta que muitos evitam discutir abertamente: será possível recuperar completamente o Besnard ou apenas parte dele poderá ser restaurada?
Pomini abordou esse dilema com clareza: restaurar o navio por completo terá um custo elevado e manter sua operação implicará em despesas ainda maiores. Sendo este um patrimônio do Instituto do Mar (Imar), a APS ressalta que atua como intermediária e não como responsável financeira pelo processo.
“A questão central é o alto custo da recuperação total; se for mantido em navegação, os gastos serão ainda mais significativos. Como se trata de um navio privado, estamos intermediando essa recuperação”, afirmou.
Apesar das incertezas presentes, uma decisão já foi tomada: será feita uma homenagem permanente ao navio no Parque Valongo, independentemente do veredito técnico do estaleiro. Resta saber se essa homenagem consistirá em um casco inteiro ou apenas em fragmentos.
Um navio sem propósito enfrenta novos riscos
A reflutuação solucionou um problema técnico imediato, mas não resolveu a questão estrutural que levou o navio ao fundo: a ausência de uma função clara que justifique sua manutenção contínua. Um patrimônio sem uma utilização definida tende a repetir seu ciclo de abandono.
Esse cenário já ocorreu após o incêndio em 2008, quando o Besnard passou anos à deriva entre USP, Ilhabela e o Imar, sem ninguém assumir efetivamente sua responsabilidade. O exemplo do SS Rotterdam — um navio transformado em hotel e museu numa cidade portuária europeia — demonstra como um propósito bem definido pode evitar esse destino indesejado. Naquele caso, a embarcação prosperou porque adquiriu um uso regular capaz de cobrir suas despesas de manutenção.
Sem essa definição clara — seja como museu, espaço educativo ou atração turística — o Besnard corre sérios riscos de se tornar apenas mais um monumento caro no Parque Valongo.
Pomini solicita apoio sem prazo definido
Em março passado, antes mesmo da reflutuação ser realizada, Pomini já havia indicado à imprensa que para a recuperação seria necessário contar com parceiros financeiros, visto que a APS não pode arcar com as despesas de algo que não lhe pertence. Essa mensagem permanece agora com maior urgência.
“De onde virá o financiamento para desmontar? A história desse navio é nossa responsabilidade coletiva. Convoco todos na comunidade portuária e empresários para unirmos esforços na recuperação dessa embarcação”, pediu.
Uma boa notícia no aspecto financeiro é que os atrasos na reflutuação não geraram acréscimos nos custos. O contrato firmado com a Marfort continua fixado em R$ 8,6 milhões, sem reajustes.
“Custo zero. O valor permanece o mesmo. Contratamos um serviço e não estabelecemos um prazo específico”, garantiu Pomini.
A APS planeja consultar especialistas e membros da comunidade interessada para elaborar o projeto final sobre o Besnard. Uma enquete pública será realizada para colher opiniões sobre o futuro da embarcação e Pomini prometeu reunir proprietários e defensores da história do navio dentro de dois ou três meses já no estaleiro.
Cinco meses para decidir os próximos passos
De acordo com Pomini, há pelo menos cinco meses até que uma definição concreta seja alcançada sobre os próximos passos para o Besnard. No entanto, isso dependerá das respostas vindas de empresas, associações e autoridades públicas ao apelo feito durante esta coletiva.
Santos conseguiu trazer o Besnard novamente à superfície. Agora resta saber se conseguirá tomar decisões com igual determinação sobre seu futuro imediato.
