Embora você não seja um entusiasta, a tradição de assistir a um clássico no domingo ou jogar uma partida descontraída na praia em Santos é parte integrante da vida e da cultura de muitos.
Entretanto, já parou para pensar se é possível ir além do simples objetivo de marcar um gol?
Às vezes, o que realmente importa é elevar a voz. Fazer novas amizades. Aprender a respeitar regras. Ou, simplesmente, perceber que aquele espaço também faz parte da sua identidade.
Essa é a essência do Projeto Bruto Fruto, que está com inscrições abertas para o futsal feminino na UME Colégio Santista. Desde sua criação em 2015, o projeto tem trabalhado com crianças e adolescentes de áreas como Vila Nova e Morro Monte Serrat, utilizando esporte e cultura como instrumentos de desenvolvimento pessoal.
A narrativa se torna ainda mais rica ao considerar o panorama do futebol feminino em Santos.
Com uma população composta por 54,6% de mulheres, a cidade começa a criar novas oportunidades para meninas em um esporte que durante muito tempo tentou excluí-las.
O impacto de uma quadra
No projeto Bruto Fruto, o futsal se manifesta exatamente onde essa modalidade já faz parte da vida cotidiana de muitas crianças.
Atualmente, ainda há vagas disponíveis para meninas, enquanto as inscrições para os meninos estão encerradas e há lista de espera. As atividades femininas ocorrem às quintas-feiras, das 17h às 20h.
O projeto atende jovens de diversas regiões da cidade e é coordenado por mulheres.
Isso cria referências que não são visíveis nas tabelas dos campeonatos.
Quando as meninas chegam à quadra, encontram outras mulheres em papéis de liderança e ensino. Gradualmente, a ideia de que o futebol é um espaço exclusivamente masculino vai se dissipando na prática.
Thayla serve como exemplo dessa transformação.
Conforme relato do projeto, ela começou bastante tímida e enfrentava dificuldades para se expressar. Com o passar do tempo, adquiriu confiança e passou a jogar com mais segurança, formando laços dentro da equipe.
Laysla chegou com um desafio diferente. Ela apresentava problemas de comportamento na escola. A rotina do futsal ajudou-a a trabalhar questões como regras, limites e convivência social.
Mudanças que podem parecer pequenas à distância têm grande significado para quem vivencia essas experiências.
Um passado de proibição
Pode ser curioso refletir sobre isso enquanto uma menina dribla outra na quadra santista, mas o futebol feminino no Brasil possui uma história recente marcada por restrições.
Em 1941, foi promulgado o Decreto-Lei nº 3.199, que proibia as mulheres de praticarem esportes considerados incompatíveis com sua “natureza”, incluindo explicitamente o futebol em 1965.
Essa restrição perdurou até 1979.
Somente em 1983 houve a regulamentação do futebol feminino. Isso significa que gerações inteiras cresceram sem ter as mesmas oportunidades organizadas que os meninos tinham no esporte.
As consequências desse atraso não desaparecem simplesmente porque as proibições foram levantadas.
Faltaram competições adequadas, categorias de base estruturadas e investimentos contínuos. Além disso, houve escassez de referências próximas no esporte feminino.
Assim sendo, quando uma menina entra hoje em uma quadra para jogar futsal, está participando de algo muito maior.
Ela está reivindicando um espaço esportivo que foi formalmente negado às mulheres por décadas.
Santos tem um papel especial nesta história
A cidade tem um cenário único nessa discussão.
Santos possui uma relação intensa com o futebol. Pelé tornou a Vila Belmiro um ícone mundial da modalidade. As Sereias da Vila foram essenciais para colocar o futebol feminino do clube entre os mais respeitados do Brasil.
Atualmente, a cidade está começando a abrir novas portas nesse contexto.
Em março de 2026, a Portuguesa Santista anunciou seu departamento dedicado ao futebol feminino com três categorias de base – Sub-15, Sub-17 e Sub-20 – em parceria com o Esporte Clube Santa Rosa, ativo na modalidade desde 2001.
Esse movimento merece destaque por um motivo simples:
Enquanto o Santos FC mantém apenas uma categoria Sub-20 feminina atualmente na base, a Briosa optou por iniciar com três categorias diferentes. Embora ainda exista muito a ser feito nesse cenário, pelo menos surgem mais oportunidades para quem deseja continuar jogando após a escola.
A situação altera significativamente a conversa sobre o futuro das atletas femininas no esporte.
Se uma criança aprende a ocupar espaços públicos, conviver com outras pessoas, cuidar do próprio corpo e confiar nas suas capacidades, então o esporte já cumpriu um papel fundamental na formação dela.
As Sereias continuam contribuindo nessa trajetória
As Sereias da Vila retornaram à Série A1 do Campeonato Brasileiro após conquistarem a Série A2 em 2025. O time também trouxe reforços internacionais como a colombiana Yoreli Rincón e a argentina Mariana Larroquette para esta temporada.
Além disso, há uma oportunidade especialmente atraente para aqueles que estão começando neste universo.
A entrada nos jogos das Sereias na Vila Belmiro é gratuita durante as partidas realizadas no estádio. O próximo jogo em casa ocorrerá no dia 26 de agosto contra o Mirassol pelo Paulistão Feminino.
Para uma criança que iniciou sua jornada jogando futsal em uma escola, assistir a uma partida profissional pode ter um significado totalmente diferente.
Bora pra Copa de 2027?
Ainda há mais um elemento se juntando a esse quebra-cabeça.
O Brasil sediará sua primeira Copa do Mundo Feminina em 2027, marcando o primeiro torneio realizado na América do Sul.
Santos também será parte desse evento.
O CT Rei Pelé foi selecionado pela FIFA como um dos centros oficiais de treinamento para o Mundial,
repetindo uma relação histórica entre Santos e Copas do Mundo; durante o torneio masculino em 2014, recebeu a seleção da Costa Rica.
Resta saber qual seleção ficará na cidade durante o evento.
Entretanto,
o município já sabe que receberá novamente atletas renomados mundialmente.
Santos está preparando sua base antes da próxima Copa
O Projeto Bruto Fruto não precisa necessariamente revelar a próxima Marta para fazer diferença; caso isso ocorra,
será ótimo;
mas as mudanças começam antes mesmo da chegada da atleta profissional.
Inicia-se quando uma menina percebe ser capaz de solicitar a bola,
quando entende que pode errar sem abandonar o jogo,
quando encontra mentoras que confiam nela
e vê outras mulheres liderando treinos.
A estratégia nacional lançada pelo Governo Federal em 2023 para fortalecer o futebol feminino também estabelece diretrizes focadas no aumento da participação feminina,
na promoção de projetos voltados para meninas e mulheres
e no fortalecimento da formação esportiva.
É assim que essa modalidade deixa de ser apenas uma exceção e passa realmente fazer parte do cotidiano das pessoas.
Santos já tem narrativa suficiente sobre futebol; agora pode estar iniciando um novo capítulo: a história das meninas que não precisam mais pedir licença para entrar em campo.
Serviço
Projeto Bruto Fruto | Futsal feminino
UME Colégio Santista
Pelo telefone: span>(13)98212-1876 ou diretamente no projeto.br />
Rua Sete de Setembro,
34,
Vila Nova,
Santos
Dias dos treinos: quintas-feiras das 17h às 20h
Dias dos treinos: terças-feiras das 17h às 20h
Situação atual das inscrições: b> vagas preenchidas e lista de espera.
No próximo jogo das Sereias na Vila: b> Santos x Mirassol , em 26 b >de agosto pelo Paulistão Feminino . b > a entrada é gratuita.
