Iniciemos esta reflexão com um simples cálculo.
Uma árvore proporciona sombra. Essa sombra altera o percurso de quem passa. O trajeto leva até uma padaria, uma loja ou um café. Os trabalhadores desses locais reconhecem os residentes, e os moradores conhecem as pessoas que atendem atrás do balcão.
Embora possa parecer algo trivial, ao observar mais atentamente, percebe-se que é assim que uma das engrenagens da vida urbana funciona.
Essa conta resulta em um saldo positivo. Todos se beneficiam. No entanto, esse cenário pode ser alterado com a chegada de um projeto de construção.
Por essa razão, algumas obras merecem ser monitoradas além do dia em que os tapumes são retirados. Na Aparecida, a Alameda Armênio Mendes está passando por uma transformação significativa.
A valorização é um conceito bem conhecido em Santos
Esse termo aparece em anúncios de imóveis, nas placas de novos empreendimentos e nas conversas daqueles que buscam um lar.
Entretanto, a palavra também se reflete nos preços dos aluguéis, no valor dos pontos comerciais e nas dificuldades enfrentadas por alguns para permanecer nos bairros onde construíram suas histórias.
Portanto, quando uma obra promete valorizar uma área, há uma discussão mais ampla acontecendo nas entrelinhas. Quem realmente se beneficia dessa valorização? E como assegurar que os habitantes atuais também compartilhem desse progresso?
É nesse contexto que uma obra de cerca de um quilômetro se torna mais importante do que aparenta.
A rua primeiro; depois, tudo o que vem junto
A reurbanização da Alameda Armênio Mendes ocorre na Aparecida e está dividida em cinco fases distintas.
O projeto inclui a instalação de novas redes de drenagem, abastecimento de água e esgoto, além do enterramento da fiação elétrica. Também prevê a revitalização das calçadas para torná-las acessíveis, melhorias na pavimentação e intervenções paisagísticas. A ação ainda contempla o enterramento dos cabos aéreos relacionados à CPFL, telefonia e internet.
Conforme informações da Prefeitura de Santos, essa intervenção terá repercussões socioeconômicas significativas e poderá gerar valorização tanto imobiliária quanto comercial, além de atrair novos investimentos. Aqui é onde surge um aspecto relevante a ser considerado.
O planejamento inclui calçadas padronizadas com piso tátil e rampas para acessibilidade. A revitalização da pavimentação contemplará cruzamentos com blocos de concreto e o paisagismo incluirá novas árvores e áreas ajardinadas.
Essas melhorias podem tornar o dia a dia mais prático para quem transita pela região. Contudo, antes de avaliar os resultados finais, é crucial questionar: quais critérios foram utilizados para essas escolhas?
A execução da intervenção está sob responsabilidade do Grupo Mendes através de um Termo de Responsabilidade para Implantação de Medidas Mitigadoras e Compensatórias (Trimmc) .
Segundo a Administração Municipal, não são utilizados recursos próprios na implementação deste projeto. Na prática, uma companhia privada financia e realiza modificações em espaço público como parte das exigências vinculadas ao seu empreendimento.
Para esclarecer melhor os critérios adotados e os impactos esperados da reurbanização em relação às medidas compensatórias, buscamos contato com o Grupo Mendes .
Até o fechamento desta reportagem, a empresa não havia respondido às indagações feitas. Caso haja um retorno, este texto será atualizado.
Quem se beneficia desse investimento?
A advogada e pesquisadora do Observatório das Metrópoles Gabriela Peixoto Ortega levanta uma questão que muda a perspectiva sobre a obra.
“O problema não reside apenas no setor privado executar obras no espaço público. A questão central é saber quem decide onde as contrapartidas serão aplicadas e qual projeto urbano elas servem.”
Essa reflexão se concentra menos em quem arca com o custo da obra e mais em quais lógicas determinam onde os investimentos são realizados .
As contrapartidas existem precisamente para mitigar impactos causados por projetos empresariais.
Mas quando essa intervenção também transforma positivamente o entorno do próprio empreendimento, surgem discussões importantes sobre os critérios utilizados para definir as ações realizadas.
Ainda segundo Gabriela, há riscos associados a essa dinâmica.
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“Contrapartidas urbanísticas não deveriam funcionar como uma extensão do projeto de valorização do próprio empreendimento.” p > blockquote >
A transformação da Alameda atende unicamente às demandas geradas pela construção privada ou também considera prioridades urbanas mais abrangentes? span > p >
Valorização mencionada nos documentos oficiais b > h2 >
Há um dado relevante que elucida por que essa discussão é tão pertinente. A própria Prefeitura menciona a span > valorização imobiliária e comercial b > como um dos efeitos esperados dessa reurbanização. span > p >
Isso não é fruto de interpretações externas; está claramente expresso nos documentos oficiais relacionados à intervenção. span > p >
Valorizar uma área não necessariamente representa um problema; para quem possui propriedades imobiliárias isso resulta na ampliação do patrimônio. Para comerciantes locais, uma região organizada pode aumentar o fluxo de clientes; enquanto para pedestres na Aparecida, calçadas acessíveis facilitam o cotidiano. span > p >
O ponto crítico surge quando essa valorização impacta as pessoas de maneiras distintas. span > p >
Um imóvel mais valorizado aumenta o patrimônio do proprietário; span > mas pode elevar o aluguel cobrado aos inquilinos b > . span > p >
Um novo empreendimento movimenta a economia local; span > mas pode pressionar os preços dos imóveis vizinhos b > . span > p >
Um comércio pode atrair novos clientes; span > mas também enfrentar custos maiores para se manter no mesmo local b > . span > p >
“A valorização imobiliária deve ser acompanhada por políticas que assegurem a permanência da população no território; caso contrário gera gentrificação e expulsão econômica.” defende Gabriela. blockquote >
O termo “gentrificação” surge frequentemente quando regiões passam por rápidas transformações seguidas da valorização imobiliária. Essa expressão descreve processos que dificultam a permanência dos antigos moradores e das atividades econômicas já estabelecidas naquele espaço.
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