De acordo com o Panorama do Contas a Pagar 2026, realizado pela plataforma Qive, aproximadamente 62% das empresas no Brasil ainda não começaram a analisar os impactos da Reforma Tributária, que terá início em 2026 e se estenderá até 2033. Essas mudanças exigirão uma reestruturação significativa na gestão financeira das organizações.
Marlene Martins, consultora de finanças empresariais e diretora da Afórtua Consultoria Financeira, alerta que o maior risco não reside apenas na carga tributária, mas também na maneira como o capital circula internamente. “Não se trata apenas de impostos. O fluxo de caixa é crucial. A reforma altera a dinâmica financeira da empresa. Se o empresário não estiver atento, pode continuar vendendo e mesmo assim enfrentar perda de recursos”, afirma.
A especialista enfatiza que a nova lógica tributária requer um entendimento abrangente de todo o processo financeiro, desde a venda até o recebimento, e não somente sobre as receitas geradas. “Atualmente, muitas empresas falham em conectar vendas, emissão de notas fiscais e recebimentos. Com a nova reforma, essa integração se torna obrigatória. O setor financeiro deve ser automatizado e estar conectado, especialmente em relação aos meios de pagamento como Pix, cartão e boleto”, explica.
Crédito tributário como ativo financeiro
Outro aspecto importante que impactará o caixa das empresas é o crédito tributário. “Esse crédito deve ser considerado dinheiro. Se não for gerenciado adequadamente, a empresa pode perder valor sem perceber. É essencial tratar esse crédito como um ativo estratégico que precisa ser protegido antes de sua utilização”, destaca Marlene Martins.
A consultora também menciona que a relação com fornecedores se torna ainda mais crucial nesse cenário. “As empresas que conseguirem estruturar bem sua rede de fornecedores terão uma vantagem competitiva ao gerar crédito de forma inteligente e otimizar seu caixa”, pontua.
Controle financeiro nas fases da Reforma Tributária
A implementação da Reforma Tributária ocorrerá em etapas até a eliminação total de tributos como PIS (Programa de Integração Social), Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social), ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) e ISSQN (Imposto Sobre Serviços). Para Marlene Martins, essa transição deve ser encarada como um processo financeiro com riscos progressivos.
Fase 1 – 2026: Início da adaptação (risco de desorganização)
No primeiro ano, as empresas começarão a enfrentar novas regulamentações e ajustes operacionais, ainda operando predominantemente sob o modelo atual em que os tributos estão embutidos nos preços.
Risco principal: ausência de uma leitura financeira precisa e decisões fundamentadas em dados inconsistentes. “O problema aqui não é o imposto em si. É a falta de organização. A empresa ainda não consegue identificar claramente o impacto no caixa”, alerta.
Fase 2 – 2027 a 2032: coexistência entre modelos (risco de perda invisível no caixa)
<pDurante essa etapa, os sistemas antigo e novo coexistirão, com uma introdução gradual do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), além do aumento da importância dos créditos tributários.
Risco principal: perda de recursos devido à má administração dos créditos e falta de ajustes nos preços praticados. “Esta fase é especialmente delicada. A empresa pode sofrer perdas financeiras sem perceber porque os erros não aparecem diretamente nos lucros, mas sim no fluxo de caixa”, explica Marlene Martins.
Fase 3 – 2033: consolidação do novo sistema (risco à competitividade)
A partir deste ano, os tributos como PIS, Cofins, ICMS e ISSQN serão definitivamente eliminados, consolidando o novo sistema tributário.
Risco principal: diminuição da competitividade e dificuldades para se manter no mercado. “Neste ponto já não se trata mais apenas de adaptação; é uma questão de sobrevivência. Quem não organizou suas finanças até aqui enfrentará sérias dificuldades competitivas”, esclarece.
A importância da precificação durante a transição tributária
A maneira como os produtos e serviços são precificados será afetada diretamente durante a implementação da reforma. Segundo Marlene Martins, a precificação deverá ser dinâmica ao longo dessa transição. “O preço deixará de ser apenas um número fixo para se tornar uma estrutura complexa onde parte inclui impostos embutidos enquanto outra parte reflete as novas regras tributárias. Aqueles que não compreenderem isso poderão perder margem lucrativa sem perceber”, contextualiza.
A especialista sugere que as estratégias de precificação devem evoluir conforme as fases da reforma:
Fase 1 – 2026: organização interna dos preços
Ainda com os tributos embutidos, as empresas devem começar a estruturar suas formações de preços internamente.
Dica estratégica: separar receita, custos, tributos e margens dentro da gestão para evitar decisões baseadas em suposições errôneas. “Os empresários precisam compreender quais valores pertencem à empresa e quais são impostos, mesmo que essa separação não seja visível ao cliente”, orienta.
Fase 2 – 2027 a 2032: precificação híbrida adaptável
Nessa fase em que dois sistemas estarão ativos simultaneamente, a formação dos preços deve levar em consideração tanto os tributos já incluídos quanto as novas diretrizes tributárias.
Dica estratégica: utilizar uma estrutura em camadas para definição dos preços (operacionalização, tributos antigos e nova tributação), revisando margens frequentemente enquanto considera os efeitos dos créditos tributários no fluxo financeiro. “Nesse período quem continuar utilizando as mesmas práticas anteriores poderá começar a perder caixa mensalmente sem perceber”, adverte.
Fase 3 – 2033: precificação alinhada ao novo modelo
No estágio final do sistema reformado, os preços passarão a representar mais claramente as operações das empresas com impostos tratados separadamente.
Dica estratégica: fundamentar os preços na real margem de contribuição e na geração efetiva de caixa. “Os valores precisam refletir corretamente o negócio; os impostos serão repassados enquanto as margens sustentam a operação”, conclui.
Marlene Martins menciona que os efeitos da reforma variam entre setores; empresas prestadoras de serviços com alta folha salarial podem gerar menos crédito tributário, enquanto aquelas com maiores volumes de compras podem se beneficiar significativamente mais dessa mudança.
<p“Empresas que oferecem serviços com baixa estrutura voltada à compra tendem a enfrentar maiores dificuldades. Por outro lado, aquelas bem organizadas que realizam boas aquisições conseguem transformar questões tributárias em vantagens competitivas reais. Não há espaço para incertezas na precificação agora; é indispensável entender quanto realmente sobra no caixa além do lucro,” finaliza.
Por Enzo Tres
A publicação sobre como a falta de gestão financeira durante a Reforma Tributária pode impactar o caixa das empresas até 2033 foi divulgada inicialmente por Catraca Livre.
