Já se aventurou pela orla de Praia Grande e ficou curioso sobre o morro ao fundo, pensando: “o que haverá lá em cima?”
Muitas pessoas que percorrem a Avenida Presidente Castelo Branco podem não imaginar que, além da densa vegetação da Mata Atlântica, se esconde uma fortaleza militar com mais de um século de história.
Imagem: Fred Casagrande/Prefeitura de Praia Grande
Com canhões franceses, túneis habitados por morcegos, um presídio improvisado e até um ataque aéreo na tarde de um dia qualquer, a Fortaleza de Itaipu não é exatamente uma atração turística famosa. Entretanto, possui uma narrativa que muitos moradores de Praia Grande desconhecem, o que é motivo suficiente para ser explorada.
A origem do nome
Antes mesmo da construção dos canhões ou da presença militar, o nome já existia. Itaipu tem raízes no idioma Tupi. Os indígenas que habitavam essa região do litoral paulista ouviram as ondas colidindo nas rochas e deram o nome de “água que ronca na pedra”. Embora a etimologia ainda seja debatida entre os estudiosos, a imagem evocada é poderosa e resistiu ao passar dos séculos.
Imagem: Fred Casagrande/Prefeitura de Praia Grande
<pNo início do século XIX, a área era uma propriedade rural pertencente ao capitão-mor José Gonçalves de Aguiar. Ele cultivava cana-de-açúcar com o auxílio de doze escravos e produzia anualmente cerca de mil medidas de aguardente. Havia um engenho movido por bois, casas construídas em madeira nobre e senzalas. O solo que hoje abriga canhões e túneis já foi antes terra fértil para a produção de farinha, arroz e feijão.
A proposta surgiu com Campos Sales
A ideia de transformar a Ponta de Itaipu em uma fortaleza militar teve origem no governo do presidente Campos Sales, que esteve à frente do Brasil entre 1898 e 1902. Um detalhe interessante: ele nasceu em Campinas e faleceu em Santos, em 1913. A cidade cuja baía ele pretendia proteger foi também onde passou seus últimos dias.
Em janeiro de 1902, foi divulgado um aviso oficial dando início às obras. Um grupo formado por 140 soldados acampou na futura Praia Grande e começou a subir o morro. Era como se fosse uma versão antiga dos “Legendários”, mas sem as reviravoltas dramáticas.
Um complexo com três fortes
A Fortaleza de Itaipu não consiste em apenas um edifício isolado; trata-se de um complexo composto por três estruturas distintas:
- Bateria Gomes Carneiro (1904): É a estrutura mais antiga do conjunto. Criada para defesa terrestre, caso alguém tentasse ascender pelo interior do morro. Possui um paiol abobadado (atenção: não confundir com ‘abobado’) e um poço destinado à observação.
- Forte Duque de Caxias (1918): Atualmente funciona como Pavilhão Administrativo. No passado, tinha torres de observação voltadas para a Baía de Santos, mas essas vistas estão agora obstruídas pela vegetação ao redor.
- Forte Jurubatuba (1919): Este é o destaque do complexo. Localizado na Ponta da Jurubatuba, onde as ondas colidem contra as rochas que batizaram a região. Recebeu os canhões Schneider em 1920 e possui um sistema subterrâneo de túneis utilizados para transportar munição até os canhões no topo. Hoje esses túneis estão escuros e sem iluminação elétrica funcional, servindo como lar para uma considerável população de morcegos.
Sim, morcegos! Caso algum magnata esteja buscando formas inovadoras para combater o crime na Praia Grande, aqui está uma sugestão para esconderijos secretos.
Canhões importados da França
Os canhões Schneider Canet, projetados para tiros rápidos com calibre de 150 mm, foram importados da França sob supervisão do capitão Mário Silveira Neto. Para abrir as plataformas na rocha do morro foram necessárias cargas explosivas. A engenharia militar daquela época era realmente explosiva.
A partir do Forte Jurubatuba é possível avistar toda a Baía de Santos e a orla da Praia Grande. Qualquer embarcação que tentasse forçar entrada pela barra santista estaria sob o alcance desses canhões. O raciocínio era claro: quem controlasse o morro controlava também o acesso ao porto mais movimentado do país.
A urgência dessa lógica aumentou durante a Segunda Guerra Mundial. A Fortaleza de Itaipu tinha como objetivo proteger a entrada do Porto de Santos contra possíveis ameaças inimigas. Com a declaração de guerra ao Eixo em 1942 pelo Brasil, tornou-se essencial reforçar a segurança no litoral paulista. O forte estava preparado para essa missão; atualmente essa ameaça já não existe mais, mas a vista permanece inalterada. Do alto é possível observar os navios entrando e saindo do porto pelo mesmo corredor que os canhões cobriam décadas atrás.
A Revolução Constitucionalista e os ataques dos hidroaviões
Vamos fazer uma breve pausa histórica.
No ano de 1932, São Paulo se levantou contra Getúlio Vargas. Fiel ao movimento paulista, a Fortaleza de Itaipu monitorava atentamente a barra santista e tomou uma atitude decisiva: quando uma embarcação federal se aproximou demais da Ponta Grossa, os canhões dispararam.
A retaliação veio dos céus no dia 15 de setembro daquele ano às 14h30; cinco hidroaviões da Marinha federal sobrevoaram a região despejando cerca de 20 bombas sobre a fortaleza. A maioria das bombas atingiu as pedras ou caiu na água; no entanto, a rede elétrica foi destruída deixando o forte sem energia elétrica.
E aqui vem uma reviravolta: o ataque foi orquestrado por um major que atuava na própria fortaleza. Ele pediu licença alegando motivos pessoais para ir até São Sebastião com os federais antes de retornar para coordenar o bombardeio. Antes da partida deixou um bilhete à esposa avisando: “Afaste-se da Fortaleza de Itaipu pois irei bombardeá-la”. Pelo menos ele se preocupava com ela!
Diante da escassez dos canhões reais enviados ao front, o forte improvisou réplicas feitas em madeira para enganar os federais.
De fortaleza à prisão e depois novamente à fortaleza
Em algum período histórico indeterminado, o Forte Jurubatuba também foi utilizado como presídio. Embora os registros sejam escassos quanto ao tempo exato dessa utilização, é certo que aquele espaço concebido para disparar canhões também serviu para manter prisioneiros sob custódia. Embora inusitada essa combinação faz sentido devido à localização geográfica—um morro elevado cercado pela Mata Atlântica e com acesso restrito.
No presente momento, o Exército utiliza essa área para treinamentos relacionados à sobrevivência na selva. A vegetação circundante permanece bem preservada proporcionando aos visitantes uma bonita caminhada pela floresta densa durante a subida.
Método para visitação
A Fortaleza de Itaipu não está disponível para visitas individuais; as entradas são realizadas apenas através de passeios guiados em grupos utilizando vans ou micro-ônibus—carros particulares não são permitidos.
O responsável pelo grupo deve assinar um termo assumindo responsabilidade e agendar previamente dependendo da disponibilidade dos oficiais encarregados da visitação. O passeio é gratuito e tem duração média entre uma hora e meia à duas horas.
A entrada está situada na Avenida Marechal Mallet—nome dado em homenagem ao general João Nepomuceno de Medeiros Mallet—o mesmo ministro da Guerra encarregado por Campos Sales na elaboração do projeto da fortaleza em 1902. Sem sua contribuição provavelmente não haveria nem forte nem avenida (e muito menos os ótimos restaurantes nas proximidades).
Duas atividades abertas ao público ocorrerão em novembro:
- 9ª Caminhada Ecológica Forte Itaipu – 28 de novembro: Um percurso aproximado de 8 km começando na Praça Duque de Caxias no Canto do Forte passando por áreas urbanas até adentrar na Mata Atlântica dentro do complexo militar com subidas suaves.
- 9º Desafio Forte Itaipu – 29 de novembro: Uma corrida com percurso totalizando 8 km iniciando na orla envolvendo trechos na areia e atravessando partes internas do complexo fortificado incluindo trechos alagados com profundidade máxima até 30 cm culminando numa subida final pelo morro até o Forte Duque de Caxias.
A fortaleza já vigia há mais de cem anos sobre a baía superando bombas aéreas, dificuldades financeiras e sendo esquecida pelo tempo. Enquanto suas portas permanecem fechadas à população para explorar seus caminhos internos e conhecer suas instalações pessoalmente, sua rica história continua viva nas memórias coletivas.
Dicas úteis
Fortaleza de Itaipu
Av. Mal. Mallet, 1 – Canto do Forte – Praia Grande/SP
Agendamento:
Email: [email protected]
WhatsApp: (13) 99742-9196
Telefone: (11) 3273-2636
As visitas ocorrem apenas em grupos mediante agendamento utilizando vans ou micro-ônibus; assinatura obrigatória do termo responsável; entrada gratuita.
Eventos:
- Caminhada Ecológica Forte Itaipu – 28/11;
- Desafio Forte Itaipu – 29/11;
