Antes de sair de casa, é comum que mães façam pedidos a seus filhos. Orientações como levar um casaco, ter cuidado com a chuva e avisar quando chegarem ao destino são frequentes.
No entanto, Débora Silva tinha uma solicitação diferente. Ela insistia que Edson levasse sempre consigo o último holerite no bolso, como prova de seu esforço e dedicação ao trabalho, para o caso de alguém questionar sua integridade.
Edson Rogério Silva dos Santos, aos 29 anos, trabalhava como gari na Baixada Santista. Na noite do dia 15 de maio de 2006, ele estava doente, com 15 pontos na boca devido a uma cirurgia dental. Ao parar em um posto de gasolina para abastecer sua moto, acabou perdendo a vida enquanto subia o morro da Caneleira, em Santos. Ele também era pai de um menino de apenas 3 anos.
Foto: Gustavo Nascimento
Na hora de sua morte, Edson carregava tanto o crachá do trabalho quanto o holerite, exatamente como sua mãe havia solicitado.
“Meu filho limpava a sujeira da sociedade durante o dia e foi executado à noite. Ele varreu onde morreu.”
Contexto dos eventos de maio de 2006
A cidade de São Paulo foi tomada por um toque de recolher imposto pelo PCC, resultado da transferência de 765 presos para uma penitenciária máxima em Presidente Venceslau. Em resposta, a facção desencadeou rebeliões em 74 presídios e ataques nas ruas. Segundo Débora, houve uma trégua entre o PCC e o governo estadual no dia 15 de maio, algo que nunca foi oficialmente reconhecido pelo Estado. A partir desse momento, as ações policiais passaram a mudar drasticamente.
Grupos armados, muitas vezes identificados como formados por policiais militares, começaram a executar jovens nas comunidades periféricas. As investigações encontraram corpos com sinais evidentes de execução: pessoas baleadas pelas costas ou agachadas com as mãos levantadas. Os disparos eram feitos na nuca e vindos de cima para baixo.
Em um período de duas semanas, ao menos 564 pessoas perderam a vida; mais de 400 delas eram jovens negros e oriundos das periferias. Dentre os mortos, 484 apresentavam ferimentos na cabeça e apenas 6% tinham antecedentes criminais. Até hoje, ninguém foi responsabilizado criminalmente por essas mortes.
O Ministério Público Estadual optou por emitir um ofício assinado por 79 promotores enaltecendo as ações da polícia em vez de investigar os crimes. Anos depois, dois promotores expressaram arrependimento publicamente.
Débora acredita que a narrativa prevalente sobre esses eventos ignora aspectos cruciais.
“A sociedade se lembra do ataque do PCC em São Paulo, mas não menciona que isso ocorreu porque policiais estavam sequestrando familiares dos presos. Os Crimes de Maio foram consequência da corrupção estatal”, afirmou ela.
Luta independente
Após perder seu filho, Débora buscou as gravações das câmeras do posto onde Edson parou antes da tragédia. O distrito policial não colaborou com essa solicitação. Ela queria identificar os policiais envolvidos na abordagem: uma viatura Gol da Força Tática com final 66.
No pátio onde buscou a moto do filho, encontrou uma substância branca e doce dentro do tanque que decidiu provar. Constatou que era açúcar colocado ali deliberadamente. Um policial no local alertou que se ela ligasse a moto poderia ocorrer uma explosão; o Ministério Público nunca investigou esse incidente.
A delegada solicitou que Débora afirmasse que seu filho havia sido confundido com um criminoso; ela se negou.
O surgimento do movimento
Débora entrou em depressão profunda após a perda do filho e ficou internada por quarenta dias até ter uma experiência marcante: segundo ela, Edson apareceu e disse:
“Mãe, não quero você aqui. Levante-se e vá lutar!”
<pNo dia seguinte, ela notou impressões digitais dele em seu braço e interpretou isso como um sinal para seguir adiante.
Ao deixar o hospital, pediu ao marido que ajudasse a encontrar outras mães que viu na televisão. Juntas foram à casa de Edinalva Santos, mãe do surfista Marco Rebelo. Daí formaram um grupo e viajaram juntas para São Paulo; depois para Brasília; logo após para Miami e Nova York.
“Ainda existia uma lenda que meu pai dizia: quem se perdesse em São Paulo nunca mais voltaria para casa. Eu fui assim mesmo. Desembarcamos em várias estações com medo de nos perdermos”
Elas também reivindicaram à mídia uma mudança na terminologia utilizada: não eram “ataques do PCC”, mas sim Crimes de Maio.
Em 2006 Débora juntamente com Vera de Freitas e Ednalva Santos fundaram o movimento Mães de Maio. Desde o início enfrentaram tentativas sistemáticas de criminalização; Ednalva foi presa ainda em 2006 e Vera Lúcia em 2008 ambas sob acusações forjadas. Vera passou dois anos e meio encarcerada na Penitenciária Feminina de Franco da Rocha após perder sua filha grávida aos nove meses junto ao genro e à neta Bianca ainda no útero devido a tiros recebidos. Vera faleceu em maio de 2018 sem ver justiça ser feita.
Aniversário transformado em dia de luta
Débora nasceu no dia 10 de maio. Durante muitos anos seu aniversário coincidia quase sempre com o Dia das Mães. A última comemoração ocorreu em 14 de maio de 2006 quando Edson cantou para ela; no dia seguinte ele faleceu.
Aos 67 anos atualmente, é mãe de três filhos e avó de sete netos e já não celebra mais seu aniversário.
“Não comemoro mais aniversários; apenas celebro um ano inteiro dedicando-me à luta pois foi isso que meu filho cantou para mim pela última vez”
A violência estatal teve impactos profundos em sua família ao longo das gerações: um irmão desapareceu durante uma operação realizada pelo Esquadrão da Morte na Baixada Santista no final dos anos 60; antes disso mesmo sua mãe perdeu outro filho sem poder enterrá-lo adequadamente.
“Para mim não existem mais Dias das Mães porque se tornou algo comercializado; todo dia é Dia das Mães e também é dia da luta”
Mães adoecidas e perdas irreparáveis
Com o passar do tempo ficou claro que muitas mulheres envolvidas no movimento estavam adoecendo — cânceres, depressão e tumores nos órgãos reprodutivos tornaram-se comuns entre elas. As portas das instituições estavam fechadas enquanto medicamentos eram a única alternativa oferecida.
Diante disso, as Mães de Maio começaram a exigir políticas públicas voltadas ao acolhimento emocional dessas mães afetadas pela violência estatal. Conseguiram instaurar na Defensoria Pública um programa que conta com psicólogos e assistentes sociais antes mesmo levar suas demandas ao governo federal.
Numa conferência nos Estados Unidos conheceu Yanilda González — professora especializada em violência policial na América Latina — com quem desenvolveu uma pesquisa inovadora sobre os problemas enfrentados pelas mães após perdas semelhantes envolvendo mulheres do Ceará, Salvador e Rio Janeiro.
“Uma mãe pesquisando outra mãe é algo inédito”
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Santos terá um espaço dedicado à memória
No mês março deste ano (2026), o Governo Federal anunciou a criação do primeiro Centro Nacional dedicado às Vítimas da Violência Estatal (CMVV) no Brasil localizado em Santos. O espaço será situado na Rua Frei Gaspar próximo à Bolsa do Café e tem previsão para ser inaugurado no início do segundo semestre deste ano oferecendo atendimento psicossocial gratuito além da preservação documental cultural através da música funk e rap representando cerca R$3 milhões destinados ao projeto nos primeiros anos após implementação
A singularidade desse centro reside nas mãos das próprias mães que conduzirão suas atividades.
“Nossos profissionais entendem melhor como lidar com essa situação visto sermos nós mesmas mães atuando ativamente nessa busca por conhecimento”.
O símbolo escolhido para representar este espaço é o baobá.
“Essa árvore simboliza nossas crianças — suas raízes são fundamentais para fortalecer nossas iniciativas visando acabar com esse ciclo violento”.
Foto: Gustavo Nascimento
Em 2021 foi inaugurado pelo movimento um memorial localizado na Praça Domingos Aulicino no noroeste santista — composto por escultura representativa mostrando onze pessoas erguendo flores acima da cabeça . O poder público tentou nomear essa área como “Memorial da Família” mas as mães recusaram essa designação até hoje lutam pela troca exigindo “Memorial dos Nossos Filhos Vivos”.
A ONU como último recurso
Vinte anos denunciando internamente sem obter resposta levou as Mães até outro caminho tomando iniciativas internacionais — Em maio deste ano(2026), Conectas Direitos Humanos uniu-se ao movimento enviando apelo urgente à ONU denunciando omissões estatais diante dos Crimes ocorridos durante Maio.
As organizações exigiram reconhecimento oficial das execuções como graves violações aos direitos humanos além do reconhecimento pela STJ sobre imprescritibilidade desses casos — julgamento desse ponto encontra-se suspenso atualmente podendo resultar numa anistia tácita à inação governamental
“nada dessas execuções foram devidamente esclarecidas , nenhum agente estatal responsabilizado assim como as vítimas também não receberam reparações adequadas” .
Enquanto isso , as Mães continuam acompanhando operações Escudo Verão ocorridas entre os anos (2023-2024) resultando numa nova onda violenta deixando até agora pelo menos oitenta quatro mortos na Baixada Santista . Os rostos dessas novas vítimas estão estampados nas bandeiras adotadas pelo movimento repetindo assim padrões anteriores .
O QUE AINDA FALTA
Todos crimes arquivados devido falta perícia sendo Edson único exumado seis anos depois onde encontraram projétil alojado cervicalmente . TJ-SP negou ação civil pública pedindo R$154 milhões alegando prescrição .
Débora participa atualmente pesquisa junto Unifesp Universidade Oxford tendo se tornado primeira mãe pesquisadora sem título acadêmico participando dessa iniciativa . Depois duas décadas ouvindo pela primeira vez governo reconhecer publicamente letalidade policial no Brasil . Mas sabe igualmente que tal reconhecimento não é suficiente.
“Treinamento policial continua tratando moradores favela negros como inimigos mudando apenas roupagens mantendo violências contra pobres portanto existe política exterminio população negra presente desde pós-abolição”
Por isso Débora defende CMVV precisa existir independente ciclos governamentais futuros
“Essa política deve acolher aqueles já perdemos ; mas será importante futuras gerações , não pode ser apenas campanha passageira ”
Duas décadas lutando por justiça histórica ; cidade finalmente ganhará local guardará memórias perdidas ; E mãe já não faz aniversários pois último bolo comemorado foi há dezessete anos atrás.
A mensagem deixada por ela às novas mães é idêntica aquela repetida incessantemente durante todos esses anos.
“Sabemos caminho árduo nesse combate , doloroso sangrento memória nossos filhos mas precisa existir pois eles NÃO SÃO BARATAS”
Assista ao mini documentário produzido Juicy Santos sobre os crimes ocorridos Maio /2006
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