As nuvens se acumulam no céu, enquanto as ondas do mar se intensificam. Um vento forte anuncia a chegada da ressaca.
O alerta muitas vezes chega juntamente com os danos causados.
Em uma área que enfrenta cada vez mais eventos climáticos severos como chuvas torrenciais, inundações, tempestades e deslizamentos (fenômenos comuns em todo o Brasil), surge o questionamento: é possível se preparar para essas situações que agora fazem parte do dia a dia?
Foto: Plano Municipal de Ação Climática de Santos – PACS/PMS
Essa questão também foi levantada pelo designer Diego Costa dos Santos.
Nascido no Rio Grande do Sul e atuando como gerente em uma empresa multinacional, ele já residiu em diferentes regiões do Brasil e até mesmo no exterior. Com base em suas experiências pessoais, lembranças familiares de autossuficiência rural e vivências recentes de ventanias e alagações em seu estado natal, ele decidiu criar, de maneira independente, o Preparação Civil.
Este projeto pessoal e sem fins lucrativos surgiu durante suas férias, motivado pelos avisos sobre o super El Niño e pela destruição observada no Sul do país.
Diego já havia presenciado as consequências da falta de preparação em duas situações distintas. A primeira ocorreu durante a pandemia de COVID-19, quando muitos enfrentaram dificuldades devido à escassez de suprimentos básicos. Em 2022, sua cidade atual, Pelotas (RS), foi atingida por ventos violentos que chegaram a 160 km/h.
“Esse vendaval devastou diversas casas na cidade e derrubou árvores e postes. Ficamos 10 dias sem energia elétrica. Eu estava preparado; reuni lanternas, baterias e alimentos não perecíveis. No entanto, muitas pessoas próximas ficaram em pânico. Foi um prenúncio do que viria com as enchentes. O impacto nas vidas aqui no Rio Grande do Sul foi imenso. Muitas pessoas perderam suas vidas. Amigos queridos e familiares, inclusive minha mãe, tiveram que abandonar suas casas e perderam tudo. Aquilo foi um momento de grande dor e angústia”, relata.
A espera pelo desastre não é mais uma opção
A plataforma digital desenvolvida por Costa dos Santos emprega inteligência artificial para organizar dados abertos, mapeando riscos de fenômenos climáticos extremos nas cidades brasileiras. Com isso, transforma essas informações em um plano prático de prevenção. Essa tecnologia permite que moradores, autoridades públicas, jornalistas e equipes de resposta adotem decisões rápidas.
Ele observa que o Brasil ainda trata a antecipação a crises como algo extraordinário, ao passo que outros países consideram isso parte da normalidade cotidiana.
A versão inicial do site foi concluída em apenas três dias. O projeto completo levou cerca de duas semanas para incorporar mais dados e integrar alertas automáticos via Telegram.
Funcionamento da ferramenta
A plataforma Preparação Civil utiliza informações de instituições como Semaden, Inmet, IBGE, SGB/CPRM, S2ID e Defesa Civil para calcular um score de risco por município ou CEP.
A metodologia combina dados dispersos sobre monitoramento climático, geografia local, histórico de desastres e características territoriais para oferecer uma leitura clara sobre onde você reside.
Na prática, os usuários conseguem identificar quais áreas estão mais suscetíveis a eventos extremos e receber orientações sobre como se preparar adequadamente.
Além disso, o site disponibiliza dicas para montar kits de emergência tanto para quem precisa permanecer em casa durante um evento severo (chamado kit estacionário) quanto para aqueles que podem necessitar evacuar rapidamente.
Outro recurso é um simulador de inundação que ajuda a entender como o relevo reage ao aumento do nível da água.
Ações que cada cidade pode adotar antes da próxima crise
Caso você fique alarmado sempre que recebe um aviso da Defesa Civil pelo celular, agora é possível acompanhar esses alertas com mais precisão e segurança.
Pessoas de qualquer localidade podem verificar qual é o nível de risco na sua região através da plataforma.
O sistema leva em conta variáveis como número de habitantes, presença de animais domésticos e necessidades especiais de mobilidade. Assim sendo, consegue sugerir itens essenciais como água potável, alimentos não perecíveis, lanternas, medicamentos e documentos adaptados aos diferentes perfis familiares.
No caso da Baixada Santista, por exemplo, é possível observar pelo mapa que a maior parte dos municípios apresenta grau 3 a 5 de risco para fenômenos como enxurradas, ventanias fortes, ondas de calor e deslizamentos.
Dessa forma, a visualização dos dados auxilia a população a compreender as particularidades da região onde vive e quais são as vulnerabilidades territoriais além das formas adequadas de se preparar para riscos reais sem alarmismo ou romantização dos desastres.
Costa dos Santos acredita que o poder público deveria fornecer esse tipo de orientação institucionalmente. Porém reconhece na sociedade civil uma força essencial para preencher lacunas informativas e compartilhar conhecimento valioso.
E é fundamental enfatizar: é preciso evitar o medo infundado. Não se trata apenas de cenários hipotéticos; são riscos concretos como falta de energia elétrica, escassez de suprimentos essenciais ou evacuações urgentes decorrentes das intempéries.
Para ele, ter um estoque básico ou uma mochila preparada não indica paranoia; é uma demonstração de autonomia diante do imprevisível.
Saber que há água disponível ou alimentos suficientes traz uma sensação psicológica positiva ao enfrentar crises futuras.
A interseção entre prevenção e consciência climática: múltiplas aplicações da plataforma
Nas cidades costeiras como as da Baixada Santista — caracterizadas por encostas íngremes e áreas urbanas vulneráveis — reunir todas essas informações em um único lugar se torna não apenas útil mas indispensável.
Poderes públicos têm à disposição suporte no planejamento; equipes da Defesa Civil podem utilizar como referência para prevenção; jornalistas encontram contexto relevante para reportagens climáticas; enquanto moradores comuns dispõem dessa ferramenta como consulta rápida ao tomar decisões informadas quando necessário.
Foto: Henrique Teixeira/Defesa Civil de Santos-PMS
Ao lado do site informativo, o Preparação Civil também envia alertas via Telegram para disseminar informações entre comunidades locais como bairros ou escolas.
A antecipação dos riscos melhora nossa cultura preventiva ainda pouco desenvolvida no país. Em áreas densamente povoadas e vulneráveis como a nossa isso representa um ato significativo de proteção coletiva.
“Meu objetivo é alcançar o maior número possível de pessoas para garantir que tenhamos um vasto grupo brasileiro preparado para emergências. Acredito ser uma evolução exponencial: imagine alguém em uma área arriscada aprendendo hoje sobre preparação através deste projeto e no dia seguinte compartilhando esse conhecimento com os vizinhos sobre os perigos dos deslizamentos”, afirma o criador da plataforma.
Tecnologia aplicada à vida cotidiana
Analisar essas tragédias implica na necessidade das cidades brasileiras reformularem sua abordagem referente aos riscos climáticos.
Através da criatividade aliada à tecnologia, o Preparação Civil oferece orientações práticas além de promover a troca constante de informações entre os moradores locais. Isso representa um suporte real frente à nova realidade onde crises climáticas tornaram-se parte integrante do cotidiano.
No litoral paulista — onde a relação com o meio ambiente é marcada tanto pela beleza natural quanto pela fragilidade urbana — estar preparado pode ser uma das estratégias mais inteligentes para mitigar danos nas comunidades locais e proteger vidas humanas.
