Em locais distantes, batalhas podem parecer alheias a nós. No gélido Atlântico Norte, onde o horizonte se estende sem limites, uma luta que envolve arpões, navios e diplomacia se desenrola há décadas.
Enquanto muitos brasileiros desconhecem que a Islândia ainda permite a caça comercial de baleias, um santista decidiu se envolver em uma missão internacional com o objetivo de acabar com essa prática, especialmente em relação às baleias-fin.
Crédito: Diego Baravelli / CPWF
Vitor Fontes Young embarcou no Bandero, um navio da Captain Paul Watson Foundation, como parte da Operation 86, uma campanha global que junta ativistas de onze países para monitorar e realizar ações diretas não violentas contra a caça comercial de baleias-fin.
Entretanto, poucos dias após o início da missão, as autoridades islandesas abordaram a embarcação e a levaram ao porto de Reykjavík. Quatro brasileiros permanecem detidos enquanto esperam por atualizações sobre o caso, que gerou mobilização entre ONGs ambientais e autoridades diplomáticas, além de reabrir o debate sobre por que ainda se caça baleias em 2026?
Um navio, quatro brasileiros e um impasse internacional
Nos últimos dias, as notícias focaram na detenção dos quatro brasileiros que estavam no Bandero. Dentre eles está Vitor Fontes Young, oriundo de Santos. Também fazem parte da tripulação Lucas Barbosa (Craíbas/AL), Victor Calixto (Ilhabela/SP) e Rui Amorim (Ribeirão Pires/SP).
Lucas Barbosa, Rui Amorim e Victor Calixto – Crédito: Diego Baravelli / CPWF
O governo islandês alegou que alguns membros da tripulação não tinham permissão para entrar no país. Por outro lado, a Captain Paul Watson Foundation questiona a legalidade da abordagem das autoridades, afirmando que o navio estava fora das águas territoriais da Islândia quando foi interceptado. A organização também menciona que sua defesa está investigando possíveis irregularidades ocorridas durante toda a operação.
A situação continua sob investigação e apresenta diferentes narrativas sobre as ações das autoridades islandesas. Enquanto isso, o Ministério das Relações Exteriores acompanha os desdobramentos via Embaixada do Brasil em Oslo, que também é responsável pela assistência consular na Islândia.
No entanto, simplificar essa história como uma mera disputa legal seria ignorar o verdadeiro motivo pelo qual essas pessoas cruzaram o oceano.
Os tripulantes não estavam embarcando em uma viagem turística ou participando de uma expedição científica comum; sua missão era clara: tentar evitar que uma nova temporada de caça comercial de baleias prosseguisse normalmente.
É nesse ponto que a narrativa assume uma nova perspectiva.
Antes do Bandero zarpar
O Bandero faz parte da Operation 86, uma campanha internacional originada pela Captain Paul Watson Foundation. O nome remete a 1986, ano em que a Comissão Baleeira Internacional (IWC) decretou uma moratória que proíbe a caça comercial de baleias na maior parte do mundo.
Contudo, essa moratória não significou o fim dessa prática.
Quase quatro décadas depois, três países ainda mantêm essa atividade legalizada: Islândia, Noruega e Japão. Cada um deles apresenta justificativas legais distintas para autorizar caças sob determinadas condições.
Foi com o intuito de observar essa temporada de caça na Islândia que os ativistas subiram a bordo do Bandero.
Bandero em Ilhabela 2026 – Crédito: Diego Baravelli / CPWF
A Captain Paul Watson Foundation informou que as ações incluíam monitoramento marítimo e documentação das atividades baleeiras junto com intervenções diretas não violentas para impedir as caçadas. Simultaneamente, outra equipe coletava informações em terra para serem encaminhadas às autoridades islandesas encarregadas da fiscalização dessas atividades.
A Sea Shepherd Brasil ressalta que o objetivo vai além da proteção de espécies ameaçadas:
“Além da proteção de uma espécie ameaçada, a campanha enfatiza a importância das baleias nos ecossistemas marinhos; esses animais desempenham um papel ecológico vital na manutenção da biodiversidade e no combate às mudanças climáticas. Por isso, as organizações tratam a proteção das baleias como uma questão ambiental global.”
O dia em que tudo mudou
A missão tomou outro rumo quando o Bandero avistou o Hvalur 9, um dos barcos autorizados à captura comercial de baleias-fin na Islândia.
Uma embarcação auxiliar foi destacada para intervir na operação. Conforme relatado pela organização, essa ação fez com que o baleeiro abandonasse sua área de captura e retornasse ao porto sem realizar nenhuma captura naquele dia. Para os ativistas, isso representou uma conquista significativa da estratégia de ação direta não violenta.
Contudo, logo após isso começou outra operação.
A Guarda Costeira islandesa mobilizou helicópteros e drones além do navio-patrulha Freyja para assumir o controle do Bandero e levá-lo até Reykjavík. Desde então, os desdobramentos passaram também pelo campo diplomático.
Segundo a Sea Shepherd Brasil, os tripulantes ficaram incomunicáveis por cerca de vinte e quatro horas. Após esse período conseguiram manter contato esporádico com familiares através de computadores; no entanto, seus telefones celulares permanecem sob custódia das autoridades islandesas. Além disso, as organizações alegam estar investigando possíveis irregularidades durante os procedimentos adotados após a abordagem inicial.
Uma prática que o mundo nunca conseguiu encerrar
Ao longo do século XX, a caça às baleias evoluiu para algo além de uma simples atividade econômica; tornou-se uma indústria global robusta.
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