“Criei quase uma arca de Noé para o empreendedorismo. Se algo falhar hoje, teremos a capacidade de reconstruir a cidade”.
Com estas palavras, Ludmilla Rossi, CEO do Juicyhub, deu início ao podcast Empreender Consciente, que contou com uma edição especial com a presença do ministro do Empreendedorismo, Microempresa e Empresa de Pequeno Porte, Paulo Henrique Rodrigues Pereira.
O episódio foi gravado ao vivo no auditório do Juicyhub, reunindo uma plateia composta por empreendedores dos setores cultural, financeiro, espaços físicos, startups e economia criativa.
A conversa surgiu inicialmente como uma reunião privada da agenda do ministro na cidade. Contudo, Ludmilla decidiu abrir o evento à comunidade local. Qualquer interessado poderia sentar ao lado dos convidados e fazer perguntas diretamente ao ministro.
Foto: Maurício Matias
Quarenta e sete milhões de razões para refletir
<pAntes de abordar questões de políticas públicas, Ludmilla desafiou os presentes com uma pergunta sobre o número de empreendedores no Brasil.
Atualmente, existem 47 milhões de empreendedores no país, conforme os dados do ministério, sendo que 20 milhões ainda atuam na informalidade. Dentre eles, 10,3 milhões são mulheres.
Paulo Pereira trouxe uma nova perspectiva sobre esses números. Aproximadamente metade da população economicamente ativa no Brasil se envolve em atividades empreendedoras. Além disso, 70% dos trabalhadores com carteira assinada estão empregados em pequenas e médias empresas.
A formalização através do MEI trouxe mudanças significativas para aqueles que dependem de trabalhos informais. Hoje, cerca de 17 milhões de microempreendedores têm acesso ao INSS e auxílio-maternidade – direitos antes limitados apenas a quem tinha carteira assinada em grandes empresas.
Desafios do “nanismo empresarial”
Ludmilla questionou como é possível evoluir o empreendedorismo voltado à subsistência para modelos mais complexos.
O ministro reconheceu um desafio no atual modelo econômico. Um empreendedor que fatura R$ 81 mil anualmente enfrenta uma carga tributária baixa. No entanto, se ele ultrapassar R$ 82 mil em receita, a tributação aumenta drasticamente.
Esse fenômeno leva os empreendedores a fragmentarem seus negócios em várias entidades CNPJ em vez de expandirem um único empreendimento, o que Ludmilla definiu como “nanismo empresarial”.
Pereira endossou essa análise. Ele sugere que aumentar o teto do MEI para R$ 140 mil ajudaria esses pequenos negócios a crescerem sem necessitar se dividir para evitar maiores impostos.
Uma cidade fragmentada em oito quilômetros
Ludmilla voltou a atenção para Santos durante o debate. Ela destacou que a cidade abriga o maior porto da América Latina, mas enfrenta um problema sério de monocultura econômica: 60% dos empregos formais estão atrelados às atividades portuárias.
“É possível visitar realidades tão díspares quanto Sudão do Sul e Namíbia em menos de 8 km aqui. A desigualdade é alarmante”, declarou.
Pereira se absteve de prometer soluções rápidas. Ele defendeu que é essencial fazer com que o capital circule entre os negócios locais e não fique concentrado nas mãos de poucos investidores. Para ele, se uma parte maior das compras feitas pelo Estado – totalizando R$ 1,5 trilhão anualmente – for destinada a fornecedores locais menores, isso resultará em mais pedidos e estabilidade financeira para os empreendedores em Santos.
Dívidas, juros e novas oportunidades
A maior parte da discussão girou em torno da questão do crédito – um tema crucial para os presentes no evento.
Pereira abordou diretamente as dificuldades enfrentadas por quem não consegue obter crédito formal: muitas vezes esses empreendedores acabam utilizando cartões de crédito.
“Isso é um veneno devido aos juros exorbitantes que podem chegar a 400% ao ano”, afirmou.
A realidade descrita pelo ministro ressalta a importância dos programas voltados à renegociação e concessão de crédito acessível. Reduzindo os juros para cerca de 20% ao ano, um empreendedor pode evitar dívidas crescentes e ter mais espaço para investir no seu negócio.
No total, isso já resultou na liberação de R$ 7 bilhões para 193 mil pequenos negócios até agora e na oferta de descontos significativos – até 90% – para aqueles com restrições financeiras.
A voz da audiência
A participação ativa da plateia foi notável. Tarcísio Muniz, personal trainer que está formalizando sua empresa na área da saúde ocupacional, questionou sobre os custos envolvidos na abertura e manutenção de negócios em Santos.
Pereira respondeu que atualmente leva cerca de um dia para abrir uma empresa – um progresso significativo comparado ao passado onde esse processo poderia demorar semanas. Para ele, o principal obstáculo atual reside na falta de comunicação entre as exigências federais e as legislações estaduais e municipais.
Foto: Maurício Matias
Fernando Blanco, ex-diretor bancário agora à frente de uma escola focada em educação financeira, pediu mais iniciativas voltadas à aprendizagem financeira como forma de facilitar o acesso ao crédito. O ministro concordou com essa necessidade e compartilhou sua própria experiência educacional nesse contexto.
“Estudei na USP e não aprendi sobre como ser empresário ou gerenciar fluxo de caixa”, confessou.
A participante Ana Carolina Cederboom do projeto Mulheres Pretas Empreendem levantou a questão sobre empreendedores que saem do Simples Nacional devido a dívidas e só retornam após um ano. Para aqueles nessa situação específica, pagar apenas a primeira parcela da dívida renegociada já permite retomar suas atividades formais sem esperar pelo ciclo fiscal anual seguinte.
Além dos microfones
O Empreender Consciente é uma iniciativa do Juicyhub apresentado por Ludmilla Rossi no YouTube que busca retratar as nuances do empreendedorismo desde sua concepção até seu impacto social.
A gravação especial estará disponível no YouTube no dia 18 de agosto.
Paulo Henrique Rodrigues Pereira lidera o Ministério do Empreendedorismo desde abril de 2026. Anteriormente ocupou cargos como secretário nacional do Consumidor e secretário-executivo do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável. É também professor na Faculdade de Direito da USP onde completou graduação, mestrado e doutorado com estágio investigativo na Universidade Harvard.
Este ano o ministério já havia interagido com Santos anteriormente através do apoio ao Festival GOMO – um ponto destacado por Ludmilla durante o evento.
