Aumento nas vendas sem controle pode estagnar a empresa

Empresários que já estão planejando sua expansão, contratações e orçamento para 2027 enfrentam um ambiente onde falhas no planejamento podem acarretar custos elevados, especialmente quando os gastos crescem antes da geração de receitas, dos processos e da eficiência na gestão.

Os dados revelam a magnitude do problema. Em julho de 2026, o número de CNPJs com pendências financeiras alcançou um recorde de 9,2 milhões, totalizando R$ 238,6 bilhões em dívidas, conforme informações da Serasa Experian. No mesmo período, a taxa média do crédito livre para empresas atingiu 25,4% ao ano, segundo o Banco Central. Com a Selic fixada em 14% e as eleições marcadas para o dia 4 de outubro, é necessário um planejamento mais rigoroso em relação às metas de crescimento para o próximo ano.

O grande desafio reside em avançar sem que novas metas se transformem em pressão sobre a margem de lucro, capital de giro e estrutura operacional. Em um cenário caracterizado por crédito caro e incertezas econômicas crescentes, a contratação ou ampliação das operações sem um entendimento claro da capacidade do caixa pode transformar oportunidades de crescimento em riscos significativos.

Para Ravell Nava, empresário e fundador da BRL Educação, instituição voltada à formação prática de empresários, a venda continua sendo um elemento essencial para qualquer negócio prosperar. O problema surge quando os resultados comerciais são usados como justificativa para uma expansão que a operação ainda não consegue suportar. “Empresas saudáveis utilizam crédito para acelerar seu crescimento. Por outro lado, empresas desorganizadas dependem do crédito apenas para sobreviver”, enfatiza.

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A situação se agrava entre as pequenas empresas. Dentre os 9,2 milhões de CNPJs inadimplentes registrados em julho, 8,7 milhões pertenciam a micro e pequenas empresas. Cada uma dessas companhias tinha em média 7,3 contas atrasadas, conforme dados da Serasa Experian. Para negócios que dependem fortemente de capital de giro ou necessitam financiar estoques e buscar recursos bancários para expandir suas operações, as altas taxas de juros tornam os erros no planejamento ainda mais complicados de corrigir.

Quando a estrutura não acompanha o crescimento

É comum que o aumento nas vendas venha acompanhado por uma elevação na folha salarial e pela contratação de novas funções, além do engajamento com mais fornecedores e investimentos em marketing e tecnologia. O perigo reside na assunção desses compromissos sem ter clareza sobre quanto da receita adicional realmente se traduzirá em lucro e disponibilidade financeira. “Apenas aumentar o faturamento não garante a saúde financeira da empresa. É possível ter recordes nas vendas e ainda assim enfrentar dificuldades financeiras”, alerta Ravell Nava.

A situação pode se complicar porque muitos dos custos associados à expansão surgem antes que os retornos sejam percebidos. As contratações exigem pagamento desde o primeiro mês; estoques demandam desembolsos imediatos; e abrir uma nova unidade implica custos com aluguel, equipamentos e equipe. Se as receitas demoram mais do que o esperado ou se os prazos para recebimento aumentam, é o caixa que acaba arcando com essa diferença.

Por esse motivo, analisar apenas o faturamento é inadequado. Elementos como margem de lucro, geração de caixa, despesas fixas e produtividade são fundamentais para entender se o avanço está realmente fortalecendo a empresa ou apenas aumentando seu tamanho sem eficácia.

A liderança também requer atenção especial. Inicialmente é natural que o fundador acumule funções como vender, contratar e tomar decisões estratégicas. Contudo, à medida que a operação cresce, centralizar todas essas responsabilidades pode atrasar respostas ágeis e dificultar a formação de gestores aptos a assumir tais responsabilidades.

A indagação relevante feita por Ravell Nava é: como ficaria aquela empresa se dobrasse seu tamanho nos próximos meses? Se todas as aprovações e decisões ainda precisassem passar pelo proprietário, um aumento na demanda poderia expor gargalos previamente ocultos.

Planejamento diversificado para 2027

A aproximação das eleições adiciona uma camada extra de incerteza ao planejamento empresarial. O primeiro turno ocorrerá no dia 4 de outubro e onde for necessário haverá um segundo turno em 25 do mesmo mês. Para os proprietários de negócios é crucial não apenas prever resultados eleitorais mas também reconhecer que expectativas relacionadas à política fiscal, câmbio e inflação podem sofrer alterações significativas.

O Banco Central também tem enfatizado a importância da cautela nesse contexto econômico. Ao reduzir a Selic para 14% em agosto passado, foi ressaltado pelo Comitê de Política Monetária que as expectativas inflacionárias para 2026 e 2027 ainda estavam acima da meta estabelecida e que seria necessário manter uma política monetária restritiva.

Diante disso, ao planejar o próximo ano é recomendável desenvolver pelo menos três cenários: um cenário base otimista; outro mais conservador; e um terceiro focado na expansão. Em cada um deles deve-se analisar projeções referentes à receita esperada, margens lucrativas, despesas envolvidas nas operações futuras além das contratações necessárias.

Isso permite antecipar respostas antes que problemas atinjam diretamente o caixa da empresa. Quanto tempo será possível operar caso as receitas fiquem abaixo do esperado? Quais investimentos podem ser adiados? O quanto uma nova contratação precisa gerar para justificar seus custos? Qual é o limite máximo aceitável de endividamento? E quais despesas poderiam ser cortadas primeiro caso haja queda nas vendas?

“Os empresários não conseguem controlar juros ou tributação”, observa Ravell Nava. Para ele, estar preparado envolve dominar variáveis internas passíveis de medição e ajuste.

Cinco considerações antes do crescimento

A primeira preocupação deve ser com relação ao fluxo de caixa. Projetar entradas e saídas nos meses seguintes ajuda a identificar necessidades financeiras antes que elas se tornem emergências críticas. O segundo ponto refere-se à margem: um crescimento sustentável só ocorre quando novas receitas conseguem cobrir os custos operacionais enquanto financiam passos futuros.

O terceiro aspecto diz respeito ao crédito: com taxas elevadas prevalecendo no mercado financeiro é imprescindível que qualquer dívida contraída esteja atrelada a finalidades específicas bem como perspectivas claras de retorno sobre investimento. A recorrência no uso do crédito bancário apenas para suprir salários ou despesas fixas pode sinalizar desequilíbrios operacionais profundos que novos financiamentos não resolverão.

O quarto ponto aborda questões relacionadas às pessoas: aumentar contratações sem definir claramente funções específicas pode elevar custos sem alcançar ganhos efetivos na capacidade produtiva esperada. Por fim, acompanhamento constante é vital; indicadores devem ser acessíveis ao empresário enquanto há tempo suficiente para realizar ajustes necessários — não somente após fechamentos contábeis finais.

Ravell Nava compartilha sua própria experiência ao mencionar que sua trajetória na BRL enfrentou desafios semelhantes: “Fundada em 2021, nossa escola evoluiu rapidamente como um negócio lucrativo alcançando mais de R$ 80 milhões em faturamento nos últimos cinco anos enquanto apoiava mais de 20 mil empreendedores.”

Segundo ele,a chave para alcançar esse nível está na construção da estrutura necessária durante períodos de crescimento da receita — não depois disso. Portanto,o desafio dos empresários ao se prepararem para 2027 passa por integrar simultaneamente as estratégias comerciais com uma organização interna robusta.

Diante das altas taxas de inadimplência empresarial atingindo níveis recordes junto com decisões econômicas cruciais pela frente,a margem disponível para corrigir erros numa expansão mal planejada tornou-se muito menor.Crescer continuará sendo uma meta primordial para qualquer negócio,massólo tamanho dessa oportunidade precisa estar alinhado à capacidade financeira,equipe,e eficiência operacional disponíveis.

Por Carolina Lara

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By Santos Diário

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