Navio Besnard se tornará uma nova atração fixa no Parque Valongo após revitalização

Após um longo período de inatividade, o navio Professor W. Besnard finalmente teve seu destino definido.

Depois de anos repletos de dúvidas e um incidente sério que comprometeu sua preservação, a embarcação será exibida permanentemente no Parque Valongo, localizado em Santos. Antes disso, passará por uma reforma em um estaleiro no Guarujá, para onde já foi encaminhada.

Foto: Gustavo Nascimento

A decisão foi revelada por Anderson Pomini, presidente da Autoridade Portuária de Santos (APS). A intenção é devolver o navio ao Valongo em melhores condições, transformando-o em uma atração tanto para os moradores quanto para os turistas que visitam a área central da cidade.

“O navio Besnard ficará em exposição permanente no Parque Valongo. Já acertamos este novo destino do navio com o Concais, que também será transferido para o Valongo. Assim, teremos mais uma atração no Valongo que vai emocionar os turistas que chegarem a Santos pelos navios de cruzeiro”, afirmou Pomini.

Ainda não foram divulgados detalhes sobre o projeto de exposição, como a estrutura proposta ou a previsão de retorno da embarcação. O objetivo da restauração não é fazer com que o Besnard volte a navegar; os reparos visam preparar o casco para um transporte até Santos, onde ficará exposto em melhores condições.

A transferência para o estaleiro ocorreu sem complicações e contou com a autorização da Marinha do Brasil. A operação foi acompanhada por quatro rebocadores e outras embarcações auxiliares durante o trajeto pelo canal do Porto de Santos. A travessia foi realizada em baixa velocidade e levou cerca de uma hora e meia. Técnicos da empresa Marfort, além da Guarda Portuária e da Marinha, supervisionaram todo o processo.

Um patrimônio que representou o Brasil na Antártida

A história do Professor Wladimir Besnard vai além de sua ancoragem em Santos. A embarcação foi lançada ao mar em 1966 por um estaleiro em Bergen, na Noruega. Encomendada pelo governo paulista, chegou ao porto santista no dia 9 de agosto de 1967.

Considerado o primeiro navio de pesquisa civil do Brasil e também o primeiro navio oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), ao longo dos anos realizou mais de 260 expedições científicas pelo Atlântico e desempenhou um papel fundamental na formação de novas gerações de pesquisadores.

Um dos momentos mais significativos dessa trajetória começou em 1982, quando o Besnard integrou as primeiras expedições científicas brasileiras à Antártida, junto com o navio Barão de Teffé da Marinha do Brasil. Durante seis viagens ao continente gelado, pesquisadores investigaram organismos marinhos e coletaram dados sobre águas polares.

Naquele tempo, a embarcação ampliou as possibilidades da pesquisa oceanográfica nacional. Anteriormente, muitos cientistas dependiam de barcos menores com alcance restrito; com o Besnard, as equipes puderam trabalhar em áreas abertas e em grandes profundidades, unindo diversas áreas científicas numa mesma missão.

O navio também serviu como uma escola flutuante para oceanógrafos e técnicos; a experiência a bordo proporcionava ensinamentos sobre como observar as condições oceânicas e conduzir pesquisas que exigiam longos períodos no mar.

Do incêndio à incerteza

A trajetória do Besnard sofreu uma reviravolta em novembro de 2008, quando um incêndio danificou a embarcação na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Os estragos impediram a retomada das atividades e marcaram o fim da carreira navegável do navio.

Pós-incêndio, diversas instituições tentaram determinar um novo destino para a embarcação. A USP cedeu o Besnard à Prefeitura de Ilhabela, que planejava transformá-lo em um recife artificial; porém essa iniciativa foi barrada pela Justiça. Depois disso, Ilhabela repassou o navio ao Instituto do Mar (Imar), que tinha planos para criar um museu flutuante.

No entanto, a escassez de recursos dificultou os esforços para recuperar a embarcação. Por anos ela permaneceu sem uma solução definitiva até chegar ao Parque Valongo em 2024. No local, voluntários e responsáveis pelo projeto continuaram os trabalhos de manutenção e restauração para preservar sua estrutura e legado científico.

Foto: Luiz Buscapé

Entretanto, mesmo ancorado no cais, os problemas relacionados à conservação não foram resolvidos. Na noite do dia 13 de março de 2026, o Besnard adernou no canal do Porto de Santos e acumulou água no casco devido à inclinação.

Esse incidente ameaçou um patrimônio importante relacionado à ciência brasileira e reabriu discussões sobre as dificuldades enfrentadas na preservação de embarcações históricas diante da falta de recursos e clareza sobre seu futuro.

A reflutuação traz esperança

Pós-acidente, equipes começaram a trabalhar na recuperação e estabilização do navio. As ações incluíram vedação dos compartimentos afetados, testes para garantir estanqueidade e utilização de bombas hidráulicas para drenar a água acumulada no casco.

A operação avançou até junho deste ano quando o Besnard voltou à superfície recuperando sua estabilidade. Embora essa ação tenha resolvido questões imediatas emergenciais, ainda persistiam incertezas sobre sua recuperação total e seu destino final.

Nesse contexto, as avaliações técnicas eram fundamentais assim como os recursos financeiros necessários para viabilizar os serviços. Não havia definição se a embarcação retornaria ao Parque Valongo ou se apenas parte dela seria preservada.

A transferência para o estaleiro no Guarujá representa uma nova fase desse processo. Agora os reparos devem preparar o Besnard para voltar a Santos e ocupar seu lugar designado pela APS.

Lições aprendidas com Rotterdam sobre preservação

A história do Besnard pode ser comparada à experiência vivida por outro navio histórico milhares de quilômetros distante: o SS Rotterdam nos Países Baixos também enfrentou incertezas quanto ao futuro nos anos 2000 e esteve próximo do desmanche.

Lançado ao mar em 1958, esse antigo transatlântico encontrou seu porto definitivo em 2008 no bairro Katendrecht após uma parceria entre a Rotterdam Dry Dock Company, a Fundação SS Rotterdam e uma rede hoteleira que transformaram-no num ponto turístico permanente.

Foto: Iris van den Broek. SS Rotterdam em 2018

O projeto deu novo significado ao barco; hoje ele abriga visitantes através de hotelaria sofisticada, restaurantes variados e espaços destinados a eventos enquanto promove passeios históricos pelos mares que navega há décadas.

A iniciativa revitalizou Katendrecht — um bairro anteriormente decadente — promovendo novos investimentos culturais na região portuária. Junto com projetos como o Museu Fênix inaugurado em 2025, SS Rotterdam contribui ativamente na valorização da memória marítima local.

Impacto cultural gerado por navios históricos

A vivência holandesa mostra como cidades podem preservar embarcações históricas enquanto fomentam oportunidades culturais e turísticas. O navio permanece parte das paisagens portuárias mas simultaneamente oferece experiências tanto aos residentes quanto aos visitantes locais.

Rotterdam possui mecanismos efetivos para apoiar iniciativas voltadas à proteção dessas embarcações históricas; seu museu marítimo proporciona abrigo gratuito para navios construídos antes dos anos 60 garantindo assim sua proteção contínua.









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O futuro do Besnard ainda é incerto

O plano atual garante que a exposição permanente no Parque Valongo responde uma das principais dúvidas acerca do destino final do navio; todavia ainda restam questionamentos sem respostas definitivas. A APS não forneceu informações detalhadas sobre como pretende apresentar a embarcação ou quais recursos serão utilizados para contar sua história nem como será mantida esta estrutura ao longo prazo.

Além disso não existe um cronograma público estabelecido para finalizar as reformas no estaleiro; até agora apenas foi confirmado que os trabalhos visam preparar o casco afim dele retornar ao Porto sem recuperar capacidade navegável.

Essa decisão relembra um debate importante na cidade: como garantir a preservação desse patrimônio histórico vinculado às atividades portuárias assim como à ciência nacional? O Besnard representa mais que uma simples embarcação antiga; ele fez parte das expedições cruciais às ciências oceanográficas brasileiras contribuindo significativamente na formação profissional daquele que seguirão seus estudos acerca dos oceanos.

Com sua restauração espera-se proporcionar aos moradores bem como aos visitantes acesso direto à essa rica história agora fixada solidamente na terra firme. O exemplo rotterdâmico abre espaço também para discutir maneiras nas quais essa memória marítima pode se integrar efetivamente às experiências culturais proporcionadas pela cidade.

Este novo capítulo começa agora nas instalações do estaleiro; após anos marcados por tentativas frustradas busca-se finalmente definir um caminho seguro rumo à preservação desta história notável.

By Santos Diário

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