Após 5 anos sem cultivo, fazenda de 617 hectares adquirida em 2021 registra crescimento de 108% na biodiversidade.

No mês de dezembro de 2021, a companhia britânica Nattergal adquiriu uma antiga propriedade agrícola com 617 hectares em Lincolnshire, na Inglaterra. Historicamente, essa terra foi utilizada para a agricultura intensiva, especialmente para o cultivo de grãos. Entretanto, a nova proprietária optou por uma abordagem diferente: gradualmente descontinuar a produção agrícola e transformar o espaço em um projeto voltado para a recuperação ambiental. Apenas alguns anos após essa decisão, a área, denominada Boothby Wildland, apresentou um aumento de 108% em um índice geral de biodiversidade que começou a ser monitorado em 2023.

Como se deu a transição após o fim da agricultura?

A transformação não ocorreu de maneira abrupta. O processo de abandono das culturas foi gradual, com a última colheita ocorrendo em setembro de 2024. Desde então, as regiões anteriormente ocupadas por plantações começaram a se converter em uma mescla de pastagens, áreas alagadas, florestas e zonas arbustivas.

O projeto não se limitou apenas ao fechamento das portas; foram implementadas intervenções ativas para restaurar os processos naturais que haviam sido afetados pelo uso agrícola anterior da terra.

Quais ações foram tomadas para revitalizar a área?

Uma das táticas principais adotadas foi estimular o crescimento natural da vegetação. Além disso, outras iniciativas também desempenharam papéis significativos nesse contexto. O rio West Glen passou por uma restauração de aproximadamente 2,1 quilômetros, enquanto sistemas antigos de drenagem foram ajustados para reter mais água na paisagem.

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Entre as medidas implementadas estão:

  • criação e revitalização de pequenos lagos e zonas alagadas;
  • restauração do curso natural do rio West Glen;
  • diminuição da drenagem artificial na área;
  • estabelecimento de pastagens e áreas arbustivas;
  • recuperação gradual dos ambientes florestais.

Qual é o propósito da introdução dos castores na fazenda?

No âmbito do projeto, uma família composta por quatro castores-europeus foi introduzida. Esses animais são considerados “engenheiros do ecossistema”, pois constroem barragens que modificam pequenos cursos d’água e criam habitats úmidos propícios para diversas outras espécies.

A presença desses castores é benéfica na retenção de água e na criação de poças, aumentando assim a diversidade dos habitats disponíveis. Após as intervenções no terreno, espécies como lontras e turões começaram a ser observadas na propriedade.

O que representa um aumento de 108% na biodiversidade?

Esse percentual deve ser interpretado com cautela. Ele não indica que houve um acréscimo direto de 108% no número total de espécies em todos os grupos biológicos presentes. O índice refere-se a uma métrica abrangente utilizada pela Nattergal para avaliar diferentes aspectos da biodiversidade no local.

Um relatório divulgado em junho de 2026 trouxe outra informação mais acessível: a riqueza das espécies aumentou em cerca de um terço. No monitoramento realizado, foram identificadas 152 variedades diferentes de aves, morcegos, abelhas, borboletas e plantas.

Quais espécies demonstraram sinais positivos de recuperação?

Dentre as espécies que se destacaram estão aves ligadas a paisagens rurais e pastagens, como perdiz-cinzenta, cotovia e bisbita-dos-prados. Muitas delas enfrentaram quedas populacionais significativas em várias regiões do Reino Unido devido às alterações no uso do solo.

A realização do monitoramento é crucial porque a recuperação de um ecossistema natural não ocorre uniformemente. Enquanto algumas espécies podem responder rapidamente às mudanças realizadas no ambiente, outras podem necessitar de muitos anos para retornar ao seu habitat original.

A recuperação impactou também o armazenamento hídrico da fazenda?

Certo. Com o retorno das áreas úmidas e a recuperação do rio, houve um aumento na capacidade da terra em reter água. Dados referentes ao projeto indicam que essas modificações geraram mais de 4.000 metros cúbicos adicionais para armazenamento hídrico.

Dessa forma, ao invés da água da chuva ser rapidamente drenada para fora da propriedade, uma quantidade maior permanece temporariamente no local. Isso pode favorecer a formação de habitats úmidos e regular o fluxo hídrico durante períodos chuvosos intensos.

Tudo isso sugere que as fazendas devem simplesmente interromper suas atividades produtivas?

Não necessariamente. Boothby Wildland é um projeto específico voltado à restauração ambiental e financiado com esse objetivo claro: transformar uma antiga área agrícola em um espaço natural novamente. A produção alimentar continua sendo essencial; portanto, o resultado dessa iniciativa não implica que abandonar indiscriminadamente terras agrícolas seja uma solução viável.

A situação ilustra outro aspecto: áreas intensamente alteradas não estão condenadas permanentemente à escassez de vida selvagem. Quando há espaço disponível, planejamento adequado e tempo suficiente para recuperar rios, vegetação nativa e zonas alagadas, os resultados ecológicos podem surgir relativamente rápido.

O que cinco anos dedicados à recuperação revelam sobre essa antiga fazenda?

A conclusão mais notável sobre Boothby vai além do índice percentual de 108%. Desde sua aquisição em 2021, uma paisagem predominantemente agrícola começou a retornar à sua condição diversificada original. A reintegração da água, o crescimento espontâneo da vegetação e a presença de animais que alteram seus próprios habitats proporcionaram novas oportunidades para outros seres vivos ocuparem aquele espaço.

Ainda estamos nos estágios iniciais desse processo. Ecossistemas complexos demandam décadas para alcançar seu pleno desenvolvimento; os responsáveis pelo projeto ressaltam que a confiança nos resultados tende a aumentar conforme novos dados são coletados ao longo dos anos. Contudo, as primeiras evidências já indicam algo relevante: a redução da pressão sobre o solo pode permitir que os processos naturais se restabeleçam rapidamente, resultando em melhorias na biodiversidade dentro de poucos anos.

By Santos Diário

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