Parque Valongo: da tristeza sem abrigo à euforia da mobilização

Em um dia de inverno marcado por um céu limpo, figuras proeminentes da política local, acompanhadas de suas comitivas e convidados, se reuniram em uma cerimônia que celebrava a inauguração de mais uma obra significativa em 5 de julho de 2024.

A temperatura quente típica de Santos em janeiro contrastava com a estação do ano, criando uma atmosfera de renovação e grandes expectativas. Era um momento emblemático, onde a esperança e o entusiasmo coletivo se tornavam palpáveis.

No entanto, essa celebração seguia uma agenda bem planejada, muito menos espontânea do que a ocasião parecia indicar. Exatamente três meses antes do primeiro turno das eleições municipais, a partir do dia seguinte, as regras eleitorais restringiriam as ações do governo. Durante o período eleitoral, práticas comuns como nomeações e demissões estratégicas, além da participação ativa de servidores públicos em eventos oficiais, estariam proibidas. Esta situação coincidiu com a reeleição de Rogério Santos (atualmente afastado por questões de saúde), com Audrey Kleys assumindo como prefeita interina.

No contexto do futebol brasileiro, essa estratégia pode ser comparada ao famoso “gol aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo”, um momento decisivo que mistura cálculo estratégico e desespero diante do tempo que se esgota.

<pCom um clima favorável e a presença de figuras influentes trocando cumprimentos calorosos, foi lembrado algo essencial: durante muitas décadas, o contato visual entre os santistas e seu próprio porto era quase inexistente.

Santos sempre priorizou sua bela orla marítima, observando barcos à distância enquanto ignorava as barreiras que isolavam a cidade do maior porto da América Latina – motivo de orgulho para muitos.

Por muito tempo, essa separação não era apenas física; era também simbólica. A área portuária era vista mais como um ponto curioso do que como uma extensão acessível da cidade. Um espaço que muitos podiam ver, mas poucos podiam explorar.

Com o anúncio do Parque Valongo, surgiu a promessa de reparação: a restituição da visão do canal para Santos.

A iniciativa visava revitalizar ruínas deixadas ao abandono e transformar áreas negligenciadas em um espaço público vibrante e imerso nas melhores referências globais de revitalização urbana. Teoricamente, era uma abordagem impecável.

Embora tardia, esta reconexão tem potencial para ser significativa e inspiradora. No entanto, traz consigo grandes expectativas. Como toda intervenção urbana ambiciosa, ela também enfrenta o desafio crucial de atender às necessidades das pessoas envolvidas.

Visões para o mar

A proposta de utilizar a zona portuária de Santos de forma mais aberta e inclusiva não começou com o Parque Valongo. Desde os anos 2000, as discussões sobre como modernizar o porto sem perder a relação com o Centro Histórico ganharam destaque.

Iniciativas voltadas à modernização portuária nos anos 2000 – como o programa Santos 2000 e o Piano de Desenvolvimento e Zoneamento do Porto (PDZ), implementado em 2005 – foram fundamentais nessa nova abordagem ao introduzir conceitos mistos no planejamento urbano.

Esse período também trouxe melhorias significativas ao centro da cidade em termos arquitetônicos, culturais e econômicos através do programa Alegra Centro.

A visão mudou: agora se busca pensar no território portuário não apenas como uma via logística isolada da comunidade urbana, mas como um elemento vital que une paisagem, economia e cotidiano. O objetivo é guiar Santos para um futuro onde sua história não seja sacrificada no processo.

A parte insular da cidade já era reconhecida como um espaço valioso sob pressão constante por ocupação; assim sendo, soluções que integrassem operações portuárias com requalificação urbana eram imprescindíveis. O que hoje observamos é resultado de esforços feitos há anos atrás.

Dessa forma, é crucial entender o Parque Valongo como uma realização concreta (literalmente) dentro de um processo que já dura mais de duas décadas. Em termos urbanos, esse período é apenas uma breve pausa na longa jornada de transformação dos espaços públicos. Porém as pessoas esperam ansiosamente por resultados concretos que integrem a vocação portuária à necessidade de acesso ao espaço público.

Evolução da linha temporal do Parque Valongo

No dia 5 de julho de 2024, foi inaugurada a tão aguardada primeira fase do Parque Valongo, iniciando pelo Armazém 4. A estrutura incluía playgrounds e quadras esportivas com acesso inicial pela passarela adjacente à Alfândega (Praça da República).

A construção teve início em maio de 2023 após um acordo entre a Prefeitura Municipal e a COFCO International Brasil sobre medidas mitigadoras relacionadas ao Terminal STS 11.

No ano seguinte foi criada a Passarela Porto-Cidade Engenheiro José Colla, conectando diretamente a Rua XV de Novembro ao Armazém 4. Essa megaestrutura custou R$ 60 milhões e foi construída pela Rumo Logística em colaboração com a Ferrovia Interna do Porto e a Autoridade Portuária local.

Caminhar sobre esta passarela proporciona uma experiência visual impactante muito diferente das entradas tradicionais pela Alfândega.

No dia 26 de junho de 2026 foi inaugurado o Armazém 3 destinado à realização de grandes eventos com capacidade para até 4 mil espectadores. Assim como em 2024, essa obra foi concluída antes das restrições eleitorais previstas no período eleitoral.

Permanência e pertencimento

Cidades similares oferecem exemplos inspiradores para Santos na criação desses projetos portuários bem-sucedidos que promovem acesso popular e uso diversificado dos espaços urbanos. Barcelona (Port Vell), Buenos Aires (Puerto Madero), Rio de Janeiro (Porto Maravilha), assim como Belém (Porto Futuro II), demonstram essa tendência positiva.

A linha d’água é frequentemente tratada globalmente como uma grande “sala comum”, onde lazer,cultura e encontros acontecem – muito além das simples fotos postadas nas redes sociais. Essas áreas são vitais para as cidades modernas tanto na formação da identidade urbana quanto na promoção do bem-estar comunitário.

Sob o olhar crítico dos urbanistas Alex Krieger destaca que a verdadeira essência das cidades está intrinsicamente ligada às suas linhas d’água.

No campo da saúde pública , estudos realizados pelas pesquisadoras Jenny Roe e Layla McCay evidenciam os benefícios terapêuticos provenientes da interação ativa nesses ambientes aquáticos.(waterfronts). A proximidade desses espaços ajuda na redução imediata dos níveis fisiológicos relacionados ao estresse além da melhora no controle emocional – efeitos já conhecidos pelas experiências nas praias locais – mas ainda há espaço para integrar frentes d’água no cotidiano urbano das pessoas locais.

A conexão com ambientes aquáticos é considerada fundamental por economistas clássicos como Adam Smith até estudiosos contemporâneos como Richard Florida; reforçando as orlas urbanas não apenas como espaços recreativos mas essenciais para garantir bem-estar à população local.

Um watefront eficaz normalmente combina três elementos: fácil acesso,a diversidade nos usos oferecidos,e permanência contínua das pessoas nesse espaço.Apenas abrir as vistas para as águas não é suficiente; é necessário proporcionar razões convincentes para atrair visitantes constantemente durante toda semana.

A memória esquecida

A recuperação dos armazéns deve restaurar não só um patrimônio perdido mas também minimizar os danos causados pelo abandono progressivo desses locais ao longo dos anos.No entanto , segundo Jaqueline Fernandez Alves , arquiteta especializada em patrimônio histórico , esse resgate tem sido falho pois os três galpões inaugurados até julho de 2026 são estruturas modernizadas sem qualquer ligação aparente com nosso passado portuário .

By Santos Diário

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