Santos se destaca com engenho que pode se tornar patrimônio da humanidade

Localizado no alto do Morro da Caneleira, entre a exuberante vegetação da mata atlântica e a agitação urbana, encontra-se um local que carrega quase cinco séculos de história, pouco visitado pela maioria dos moradores de Santos. Com paredes construídas em pedra e cal, as ruínas de uma antiga capela e os vestígios de uma roda d’água, o Engenho São Jorge dos Erasmos foi fundado por volta de 1534, em um período em que Santos ainda era uma pequena vila e o Brasil despertava o interesse dos europeus, que adentraram as terras indígenas em busca das riquezas do “novo mundo”.

Foto: André Müller/Jornal da USP

Curiosamente, essas riquezas não se referiam apenas a minérios preciosos, mas sim ao açúcar!

Reconhecido como patrimônio cultural nas esferas municipal, estadual e federal e servindo como um importante centro para pesquisas arqueológicas que ajudam a desvendar as raízes da formação do povo brasileiro, o engenho agora almeja um objetivo inédito: ser incluído na lista de patrimônios mundiais da UNESCO. Isso representaria um marco histórico para a cidade.

A comunidade santista poderia se orgulhar desse reconhecimento. Contudo, é essencial que os habitantes conheçam melhor essa riqueza localizada em seu próprio território.

Uma indústria que influenciou todo o Brasil

Antes de mergulhar nas implicações dessa candidatura, é fundamental revisitar alguns aspectos históricos.

O Engenho São Jorge dos Erasmos é considerado a primeira agroindústria do “ouro branco” no Brasil e possivelmente a primeira sociedade anônima do país.

Martim Afonso de Souza, governador da Capitania de São Vicente na época, formou uma parceria com comerciantes portugueses e flamengos (belgas) para estabelecer e operar o engenho. Em 1540, o banqueiro holandês Erasmo Schetz adquiriu o empreendimento e começou a distribuir açúcar produzido no Brasil para toda a Europa.

No entanto, com o tempo, a concorrência proveniente do Nordeste e os ataques do pirata holandês Joris Spielbergen levaram ao declínio das operações do engenho. O local foi abandonado no século XVIII. No século XX, suas ruínas foram doadas à USP e atualmente serve como um centro de pesquisa e espaço cultural acessível ao público.

Tombado oficialmente desde 1963 nas três esferas — pelo CONDEPASA (municipal), CONDEPHAAT (estadual) e IPHAN (federal) — o engenho agora busca um quarto reconhecimento significativo.

A proposta à UNESCO

Ainda não foi feita uma candidatura formal à UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura). O diretor do Engenho, Yuri Tavares Rocha, enfatiza essa situação.

“Estamos analisando essa possibilidade. Temos recebido atenção internacional através de colaborações com a professora Cristina Anderson da Inglaterra e o professor Eric da Universidade de Kent na Bélgica.”

Recentemente, o professor Eric realizou uma palestra no engenho onde sublinhou a relevância desse local dentro do contexto dos grandes investidores de Flandres nas colônias ao redor do mundo. A perspectiva europeia destaca que aqui se entrelaçam duas narrativas: a expansão colonial financiada pelos principais banqueiros da época e a formação complexa e violenta do povo brasileiro.

A formalização da candidatura requer um projeto detalhado que cumpra todas as exigências da UNESCO. Embora não haja prazos estabelecidos até o momento, as discussões sobre o tema estão em andamento e ganhando força com cada nova troca acadêmica.

Impacto de uma possível inclusão na lista da UNESCO para Santos

O Brasil conta com mais de 20 locais reconhecidos como patrimônios mundiais pela UNESCO. No entanto, nenhum desses está situado em Santos — apesar de a cidade ostentar o título de Cidade Criativa em Audiovisual concedido pela mesma organização.

Para ilustrar a importância desse reconhecimento: fazem parte dessa lista lugares emblemáticos como Rio de Janeiro, Brasília, Paris, Catedral de Notre-Dame e Torre de Londres — marcos que moldam o imaginário cultural global.

Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Yuri Rocha comentou sobre as implicações dessa conquista:

“A história de Santos está atrelada à divisão territorial das capitanias hereditárias. A origem da cidade está diretamente relacionada à Capitania de São Vicente devido às condições geográficas favoráveis para cultivo da cana-de-açúcar e à criação de um porto abrigado.”

Em resumo, as atividades realizadas no engenho foram fundamentais para o desenvolvimento econômico da cidade.

Um selo da UNESCO legitimaria essa história e colocaria o engenho na rede global de patrimônios culturais. Isso não só abriria portas para financiamentos específicos como também aumentaria significativamente sua visibilidade internacional — algo inatingível por meio dos tombamentos nacionais sozinhos. Além disso, haveria um ganho intangível talvez ainda mais valioso: um renovado senso de orgulho coletivo em uma cidade que finalmente reconhece sua rica profundidade histórica.

O cemitério revelador

Entre 2002 e 2003 foram conduzidas escavações sob a coordenação do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP em uma área reduzida de apenas 15 m² diante das ruínas da antiga capela dedicada a São Jorge. Nessa área foram encontrados os restos mortais de 19 indivíduos: indígenas, mestiços e pelo menos uma pessoa negra identificada pelas características morfológicas cranianas.

A datação por carbono-14 confirmou que esses sepultamentos datam do século XVI, coincidindo com os primeiros anos operacionais do engenho.

“Esse local é um testemunho físico do que Darcy Ribeiro descreveu como ‘o povo brasileiro’”, afirma Yuri Rocha. “Entretanto, no atual contexto educacional voltado para a descolonização do conhecimento evita-se tratar esse processo como harmonioso; houve exploração violenta nas relações estabelecidas durante a invasão dos territórios indígenas.”

Aquelas ossadas guardam uma narrativa marcada por poder e exploração ao mesmo tempo que expressam resistência e sobrevivência. Por esta razão, o engenho deve ser encarado não como uma relíquia estática museológica.

Acessível e dinâmico

Um dos argumentos mais sólidos em favor da candidatura à UNESCO é que o engenho é um espaço aberto ao público. Desde 2004 integrado à Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da USP, recebe cerca de 10 mil visitantes anualmente oferecendo programação gratuita composta por saraus, oficinas educativas com certificação, palestras e concertos.

“A utilização pública desse espaço é vista positivamente pela UNESCO durante avaliações para candidaturas”, ressalta o diretor.

A vegetação circundante das ruínas representa um fragmento vital da Mata Atlântica inserido na primeira Reserva Internacional da Biosfera criada no Brasil; isso acrescenta outro argumento relevante: o engenho simboliza não apenas nossa história humana mas também apresenta-se como uma paisagem cultural vibrante contribuindo para biodiversidade local além dos serviços ambientais essenciais prestados à cidade.

Santos deve olhar para seu passado

A cidade frequentemente prioriza seus atrativos litorâneos enquanto ignora sua rica herança montanhosa; esse é claramente o caso do Engenho dos Erasmos. Com quase 500 anos de história ricamente documentada por pesquisas arqueológicas pioneiras ainda há menos de 10 mil visitantes anuais em uma população total aproximada de 430 mil habitantes em Santos.

A movimentação pela candidatura à UNESCO não se resolverá sozinha; depende crucialmente de vontade política ativa, financiamento adequado, mobilização acadêmica intensa além do interesse genuíno por parte dos cidadãos locais.

SERVIÇO

Monumento Nacional Ruínas Engenho São Jorge dos Erasmos

Endereço: Rua Alan Ciber Pinto, 96 – Vila São Jorge

A visitação é gratuita mediante agendamento prévio.

A programação cultural pode ser consultada no site oficial da USP.

Email: [email protected]

Telefone: (13) 3229-2703

By Santos Diário

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