Chorinho: a essência musical que molda a identidade de Santos

Na minha infância, na década de 2010, particularmente em 2013, recordo que, em todos os sábados ensolarados, meu pai fazia a mesma proposta: “Que tal irmos à praia escutar um chorinho?”

Confesso que essa não era minha atividade preferida. Naquela época, aos 12 anos e com meu irmão de 6, nossa preferência era ficar em casa jogando videogame. No entanto, um churro na Praça do Aquário facilmente nos convencía a sair. Além disso, tínhamos a chance de brincar com outras crianças jogando bola.

Assim, sem perceber, lá estávamos nós na Ponta da Praia. Apreciando o chorinho, deliciando-nos com churros e aproveitando o pôr do sol junto da família. Ao redor, outros moradores de Santos, geralmente mais velhos, se reuniam ali toda semana.

A experiência de ir ao Chorinho no Aquário nunca foi algo que eu esperasse ansiosamente. Contudo, as recordações agradáveis permaneceram. Com o tempo, aquele som começou a se enraizar em mim e passou a ter significado além de ser apenas uma melodia sem letra.

Foto: Isabela Carrari/Prefeitura de Santos

<p Foi assim que me aproximei desse gênero musical. Ele se tornou um portal para outros estilos como o jazz. Essa conexão também se fortalecia pelo ambiente ao meu redor; via meus vizinhos em suas cadeiras na praia e conhecia pessoas novas, sentindo-me parte dessa comunidade vibrante.

A relação que estabeleci com o chorinho é reflexo de uma narrativa muito mais antiga que envolve o porto, as salas da elite carioca e os quintais das periferias.

Uma praça repleta de história: 670 apresentações e quase duas décadas

O projeto que proporcionou tantas tardes repletas de churros completou 19 anos em julho passado. Para celebrar essa data especial, a Praça Vereador Luiz La Scala ficou lotada. A programação comemorativa contou com a Roda de Samba do Ouro Verde—recentemente reconhecida como patrimônio cultural santista—e a cantora Simone Ancelmo. Também houve uma apresentação dedicada a Carmen Miranda com Edson Cordeiro e o Trio Gato com Fome.

Foto: Raimundo Rosa/Prefeitura de Santos

Desde sua criação em 2007, foram realizadas mais de 670 apresentações gratuitas à beira-mar. O projeto surgiu após a reurbanização da praça do Aquário por iniciativa do então prefeito João Paulo Papa. O secretário de Cultura, Rafael Leal, sintetizou bem a importância dessa ação:

“O Chorinho no Aquário faz parte da memória afetiva de Santos. Há quase duas décadas reúne gerações ao redor da boa música em um dos cartões-postais mais belos da cidade.”

Reduzir a conexão histórica entre Santos e o choro apenas a esse projeto ignora uma narrativa cultural muito mais rica que permeia a cidade.

O porto: uma via cultural

Marcos Canduta, violonista e guitarrista que atua no duo Choro de Bolso ao lado da flautista Débora Gozzoli há mais de 25 anos, destaca três elementos fundamentais para entender a força do choro na cidade.

“Acredito que três aspectos são cruciais para essa conexão: o porto, a vida boêmia e o carnaval”, afirma.

Ele explica que o porto não serviu apenas como ponto de entrada para mercadorias; também facilitou um intercâmbio cultural intenso com o Rio de Janeiro, berço do choro.

A efervescência boêmia e os carnavais

A vida noturna intensa também contribuiu para esse cenário cultural. Entre as décadas de 1920 e 1950, as boates localizadas na zona portuária apresentavam samba, jazz e choro lado a lado. Canduta descreve esse período como uma verdadeira efervescência musical. Os primeiros blocos carnavalescos da cidade também estavam intimamente ligados ao choro.

Dessa forma histórica nasceram figuras importantes como Luizinho 7 Cordas, um dos maiores nomes do gênero no Brasil. Nascido em Marília em 1946, ele chegou à Santos ainda bebê e construiu sua carreira artística na cidade.

O Grêmio Carnavalesco Cultural e Recreativo Chorões Santistas foi fundado em dezembro de 1962 após encontros na residência de Ayrton do Violão e se tornou um ícone cultural local. Atualmente é considerado o grupo mais tradicional e duradouro dedicado ao choro na região.

A luta por reconhecimento

O Clube do Choro de Santos foi estabelecido em 23 de abril de 2002—data que homenageia Pixinguinha—dentro das instalações do Sesc Santos por um grupo de amigos envolvidos com música como Marcello Laranja e Luiz Antonio Pires.

Entretanto, sua jornada não foi fácil desde o início. A primeira sede ficou localizada em uma sala cedida pela Sociedade Humanitária na Praça José Bonifácio até que restrições horários tornaram inviável sua manutenção lá. Em 2008 foi inaugurada uma nova sede no calçadão da Rua XV de Novembro após meses dedicados ao trabalho voluntário da diretoria; porém poucos meses depois o local foi vendido e eles perderam espaço novamente.

Um clube que encontrou seu lar

Atualmente o clube possui uma sede fixa na Rua XV de Novembro, número 68, situada no centro histórico próximo ao Museu do Café e à Bolsa do Oficial.

Além disso, mantém uma colaboração próxima com o Chorinho no Aquário desde sua criação em 2007. Jamir Lopes, coordenador desse projeto descreve essa sinergia: são realizadas oficinas musicais e shows conjuntos tanto na Rua XV quanto na Ponta da Praia.

Foto: Isabela Carrari/Prefeitura de Santos

Lopes acredita que as repercussões desse projeto vão além da música propriamente dita:

“Ao democratizar o acesso à música instrumental brasileira—incluindo choro e sambas antigos—o Chorinho no Aquário solidifica a ocupação semanal do espaço público com arte e cultura”, afirma.

A Praça do Aquário se tornou um ponto ideal para encontros entre moradores locais e turistas variados nos sábados à tarde trazendo famílias inteiras com crianças e pets.

Sobre os quase vinte anos desse projeto significativo Lopes é claro:

“O Chorinho no Aquário nasceu para resgatar e afirmar o choro como patrimônio cultural brasileiro”.

Desta maneira, este projeto se transformou numa referência tanto estadual quanto nacional por ocupar regularmente um espaço público gratuitamente durante quase duas décadas.

Evolução musical entre gerações

Canduta observa mudanças significativas na cena do choro em Santos ao longo dos anos. Ele iniciou sua trajetória musical no jazz antes de mergulhar no universo do choro através das apresentações com Débora Gozzoli—a parceria completará 27 anos em 2026.

“Nota-se uma diferença interessante entre os músicos mais experientes que conheci e os jovens atualmente; há mudanças notáveis no jeito como tocam e percebem a música”, comenta.

Segundo ele, os novos talentos demonstram maior profissionalismo e dedicação além estarem abertos às influências externas.

Quando questionado sobre um possível estilo santista dentro do choro ele hesita mas identifica dois estilos coexistindo: um seguido pela tradição carioca que é mais rígido quanto aos improvisos; outro associado à escola brasiliense que permite maior liberdade criativa dentro das composições musicais. Muitos músicos locais transitam entre essas vertentes distintas.

Abertura para novas vozes

No intuito de atrair novos públicos,o projeto homenageia compositores diversos da MPB incluindo Chico Buarque até Luiz Gonzaga passando por Noel Rosa , Belchior , Milton Nascimento entre outros .

Ainda fomenta grupos emergentes como Quarteto Tétrade composto por ex-alunos da Escolinha de Choro Luizinho 7 Cordas , Boêmios da Praia Grande , além Choro das Três .

Canduta menciona que um dos locais representativos para ele é Livraria Realejo onde toca todas às sextas-feiras há mais de duas décadas . Também cita as rodas promovidas pelo Clube do Choro nas quintas-feiras .

Sobre como jovens santistas interagem com esse gênero centenário , exibe otimismo : recorda oficinas realizadas por ele juntamente com Débora por diversas cidades interioranas até mesmo nas periferias onde houve grande aceitação .

“Os jovens são receptivos , já chegam dispostos adquirir conhecimento”, resume Canduta .

E ressalta ainda como vez ou outra ações públicas ficam limitadas pela falta percepção sobre essa abertura existente .

Nascimento até reconhecimento patrimonial

O choro surgiu no Rio nos meados século XIX , resultado mistura entre danças europeias polca , valsa algumas outras raízes africanas lundu batuque . Sem piano nas comunidades populares , violonistas desenvolveram baixarias criando contrapontos improvisados nas cordas graves tornando-se marca registrada gênero .

Foto : Arquivo Almirante/MIS

A elite considerava isso imitação vulgar polcas europeias ; tocar violão poderia resultar prisão músico negro início século XX .

Nomes fundamentais na consolidação

Pessoas influentes como Joaquim Callado autor polca Flor Amorosa professor flauta Conservatório Música Rio foram essenciais desenvolvimento desse estilo apesar dificuldades enfrentadas ; Chiquinha Gonzaga primeira mulher associada gênero também atuou nesse contexto histórico .

Décadas depois Ernesto Nazareth elevou linguagem ainda mais embora somente nos anos quarenta cinquenta incorporada repertório através gravações Jacob Bandolim Garoto .

Contudo , Pixinguinha foi quem deu forma definitiva ao gênero introduzindo elementos afro-brasileiros rurais polcas valsas europeias ; Carinhoso composto em1917 gravado1928 enfrentou resistência crítica conservadora época .

Décadas após consolidou-se definitivamente Jacob Bandolim suas rodas caseiras cinquenta sessenta Waldir Azevedo popularizou clássicos Brasileirinho .

Reconhecimento tardio culminou título Patrimônio Cultural Imaterial Brasil hoje estudado rigorosamente universidades .

Um ciclo repetido pela MPB

Anos atrás ninguém cogitava ver choro tocando teatros considerado som botequim coisa gente sem instrução segundo elite carioca ; ciclo não é exclusivo deste gênero funk carioca nasceu posteriormente bailes favelas também sob suspeita .

Batidas tamborzão letras diretas foram considerados falta técnica proximidade criminalidade similar aos primeiros chorões ; diferença reside ritmo mudança choro levou quase século entre botequim título patrimônio concedido Iphan em2005 enquanto funk percorre esse caminho rapidamente impulsionado plataformas digitais projeção internacional artistas embora enfrente resistência crítica política semelhante .

Ambos compartilham lógica invenção pegaram emprestadas polcas valsas recriaram sonoridade africana criando algo inédito ; funk fez equivalente electro-funk freestyle americanos moldando batida hoje ouvida fora Brasil ; críticas apontadas falta refinamento eram maneiras novas tocar utilizando recursos disponíveis .

Diferentes trajetórias mas paralelas

<P apesar funk seguir caminho análogo não podemos igualar histórias ponto-a-ponto pois enquanto choro consolidou circuito institucional recebendo reconhecimento Iphan tornou-se sinônimo música erudita ; funk ainda disputa reconhecimento nas ruas tribunais redes sociais embate permanece aberto .

Essa comparação ilustra talvez Santos abrace hoje choro parte identidade repetindo gesto poderia ter feito antes .

Volto aquela criança entediada Ponta Praia ; se chorinho levou tempo tornar tradição consolidada talvez sons incômodos bailes ruas sejam daqui algumas décadas parte mesma memória afetiva reúne famílias sábados inteiros.

By Santos Diário

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