A ausência de Telma de Souza: o que mudaria em Santos?

No ano de 1988, Santos vivenciou um momento histórico com a eleição de sua primeira prefeita. Telma de Souza não conteve as lágrimas ao celebrar a vitória, e enquanto muitos interpretavam suas emoções como alegria, anos depois ela revelou que, na verdade, estava tomada pelo medo.

Esse sentimento de apreensão coexistia com sua paixão pela política, um segredo que Telma compartilhou em um episódio do podcast Baixada em Pauta. Ela recordou que passou dias chorando após a eleição, não apenas por emoção, mas pela insegurança sobre o futuro.

“Fiquei uns dois, três dias chorando e todo mundo dizia: Como ela é sensível, como está emocionada. Que nada, eu estava com medo, porque eu sabia o que eu não devia fazer, mas não tinha certeza daquilo que eu devia fazer”, relembrou.

Embora possa parecer difícil imaginar Telma assim, essa era a realidade dela: uma mulher genuína e forte, sempre lutando pelos direitos do povo.

Foto: acervo/Telma de Souza/PT Santos

<pO dia 10 de outubro de 2026 trouxe luto à cidade de Santos com a partida de Telma. Contudo, seu legado permanece vivo nas transformações que implementou durante sua gestão como prefeita. As políticas que criou ainda impactam positivamente o cotidiano da população e a paisagem urbana.

Durante seu mandato entre 1989 e 1992, Telma estabeleceu policlínicas nos bairros e enfrentou questões relacionadas à exclusão social de pessoas com sofrimento psíquico. Sua administração posicionou Santos como referência na luta antimanicomial no Brasil. Do seu gabinete surgiram políticas públicas inovadoras que atenderam os mais necessitados e garantiram dignidade aos cidadãos.

Refletir sobre como seria Santos sem Telma de Souza nos leva a revisitar a trajetória dessa professora que aceitou o desafio da política apesar do receio.

As raízes de Telma

Telma Sandra Augusto de Souza nasceu em Santos no dia 29 de setembro de 1944. Filha do vereador João Inácio de Souza, conhecido como Joãozinho do Instituto, cassado durante a ditadura militar em 1964, e Hilda Augusto de Souza, também atuante na Câmara Municipal, sua formação política estava enraizada na história familiar marcada pela repressão.

No entanto, limitar sua formação à herança familiar seria ignorar aspectos essenciais da sua trajetória. Graduada em Pedagogia e Direito pela Universidade Católica de Santos (UniSantos) e com pós-graduação pela PUC-SP, Telma se destacou na militância pelo movimento da anistia e na organização coletiva dos docentes através da Apeoesp.

Antes de deixar sua marca na política santista, ela foi professora e muitos ainda lembram dela nesse papel nas salas de aula.

Foto: acervo/Telma de Souza/PT Santos

<pEm 1980, foi uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores e dois anos depois conquistou uma cadeira na Câmara Municipal de Santos, onde atuou entre 1983 e 1986. Na eleição seguinte em 1986, foi eleita para a Assembleia Legislativa de São Paulo, onde permaneceu entre 1987 e 1988.

Assumir a Prefeitura significava para Telma um enorme desafio em sua cidade natal. Ela combinou suas experiências na docência e na militância pós-ditadura com os mandatos anteriores como vereadora e deputada estadual.

Ainda assim, para Telma chegar ao cargo máximo da cidade representava adentrar um novo território político.

Caminhos até a Prefeitura de Santos

A conquista eleitoral de Telma em 1988 deve ser analisada dentro do contexto da redemocratização em Santos. A cidade havia perdido sua autonomia política durante o regime militar ao ser considerada uma área estratégica para segurança nacional. A possibilidade de eleições diretas para prefeito retornou somente em 1984 com a vitória de Oswaldo Justo.

Telma também participou daquela disputa eleitoral inicial mas ficou em terceiro lugar com 34.252 votos conforme registros preservados pelo arquivo histórico Novo Milênio. Apesar do fracasso inicial em conseguir o cargo, ela conseguiu formar uma base eleitoral relevante entre as lideranças progressistas da cidade.

Quatro anos depois ela foi eleita pelo PT e assumiu o cargo em janeiro de 1989 logo após a promulgação da nova Constituição. Sua chegada ao Executivo municipal trouxe uma trajetória marcada por ativismo sindicalista ligado à redemocratização e à defesa dos direitos sociais.

E essa eleição foi um marco histórico: pela primeira vez uma mulher ocupava a Prefeitura de Santos.

A transformação da saúde mental

A questão da saúde mental é uma das respostas mais diretas à pergunta “como seria Santos sem Telma?”. Em 3 de maio de 1989, sua administração realizou uma intervenção significativa na Casa de Saúde Anchieta. Essa ação se tornou emblemática na luta antimanicomial no Brasil e inaugurou um novo modelo assistencial.

Santos começou a construir uma rede territorializada chamada Núcleos de Atenção Psicossocial (Naps), substituindo o antigo modelo centrado nas instituições psiquiátricas. Essa mudança representava mais do que alterar nomes ou locais; era um reconhecimento dos indivíduos em sofrimento psíquico como cidadãos plenos com direitos familiares e comunitários ao invés de meros pacientes isolados.

Para compreender como era o tratamento da saúde mental no Brasil antes disso é aconselhável assistir ao documentário Holocausto Brasileiro da jornalista Daniela Arbex disponível na Netflix.

David Capistrano foi secretário municipal da Saúde durante a gestão Telma e posteriormente continuou no cargo após sua saída. Ele desempenhou papel vital na formulação das políticas municipais nesse setor. A ex-prefeita destacava frequentemente as policlínicas como um esforço conjunto entre eles dois; ele trazia conhecimento técnico enquanto ela liderava com firmeza priorizando iniciativas inovadoras para aquele período. Vale lembrar que apenas em 2001 foi sancionada a Lei da Reforma Psiquiátrica no país estabelecendo tratamento preferencial fora das instituições quando possível. Santos já estava implementando essa abordagem muito antes dessa regulamentação formal.

Aproximando saúde aos cidadãos: Policlínicas e Aids

A criação das policlínicas nos bairros foi outra importante realização durante o governo Telma. O objetivo era facilitar o acesso aos serviços médicos à população local criando uma rede municipal que não dependesse exclusivamente das unidades hospitalares para atendimento.

Para os moradores da Baixada Santista essa mudança teve um impacto real pois ter serviços médicos próximos aumentava as chances de atendimento adequado às condições específicas dos pacientes além do acompanhamento contínuo por parte do sistema público.

<pAlém disso sua gestão estabeleceu o Centro de Referência e Treinamento em Aids (Craids) nos anos 1990 como resposta proativa à epidemia global e nacional enfrentada naquele período. O plano abrangia assistência médica prevenção além do combate à discriminação associada à doença.

A atuação efetiva possibilitou ao SUS distribuir medicamentos profiláticos métodos contraceptivos entre outros recursos essenciais fruto das políticas iniciadas por Telma.

Neste contexto não se tratava apenas normalizar as condições relacionadas às doenças mas também garantir o direito ao atendimento sem estigmas ou julgamentos sociais associados aos pacientes.

A redução dos danos era outra medida controversa adotada durante seu governo especialmente considerando a crescente incidência da AIDS entre usuários dependentes químicos utilizando agulhas reutilizadas. Assim foram implementadas políticas públicas voltadas ao fornecimento gratuito desses materiais descartáveis evitando assim contaminações cruzadas além da distribuição gratuita dos insumos necessários promovendo saúde pública através dessas iniciativas práticas implementadas pelo Ministério da Saúde junto às organizações civis envolvidas neste tema tão delicado.
Essas ações esclarecem claramente o viés progressista presente no governo Telma ao substituir exclusão por cuidado encarando cada vez mais a saúde como responsabilidade coletiva.
E mesmo após deixar seu cargo público ela continuou atuando nessa área coordenando iniciativas voltadas ao HIV/Aids enquanto deputada federal dando continuidade aos seus esforços iniciados localmente.

Paisagens urbanas: morros e praias

Sob a visão administrativa dela Santos ultrapassou os limites tradicionais restritos à orla marítima buscando abordar questões sociais abrangentes nas áreas periféricas também conhecidas como morros onde habitações precárias enfrentavam desafios distintos porém igualmente relevantes.
A recuperação das praias ganhou força quando seu governo lançou um programa visando restaurar comportas dos sistemas hídricos municipais além identificar ligações inadequadas levando finalmente à redução significativa das contaminações nas águas que chegavam até baía.
Foi sob sua liderança pela primeira vez depois muitos anos que as praias puderam ser consideradas adequadas para banho novamente promovendo lazer seguro turismo saudável qualidade ambiental desejável.
Telma conectou saneamento básico diretamente às condições urbanas atuais percebendo que qualidade hídrica está atrelada diretamente à saúde pública turismo infraestrutura econômica regional fundamentalmente essencial.
Nos morros houve parcerias estabelecidas junto ao Instituto Tecnológico visando mapear áreas vulneráveis adotando medidas pioneiras focadas prevenção riscos estruturais cadastramento famílias participativas envolvendo comunidades locais criando núcleos Defesa Civil colaborativos integrados conhecimento técnico organização popular modelo replicado até hoje pelos órgãos municipais responsáveis.

Além disso dentro desse contexto ambiental inovador para época iniciado programas coleta seletiva disponíveis ainda hoje lembrados por Marina Silva postando homenagens emocionantes nas redes sociais reforçando legado duradouro deixado por amiga.

A prefeita engajada pelas causas trabalhistas

No município cuja economia gira em torno do maior porto latino-americano defender empregos é essencial para muitas famílias afetadas diretamente pelas flutuações mercadológicas.
Em 1991 mobilizou esforços coletivos contra demissões massivas ocorridas entre trabalhadores portuários sob governo Collor culminando recuperação empregos históricos registrados dia resistência portuária relembrado até hoje.
Telma compreendeu profundamente identidade histórica vinculada Porto local relação intrínseca trabalho organização sindical transformações sociais necessárias revitalizando segmento econômico estratégico sustentador cotidiano santista.

Tudo aprovado!

A ascensão dela à prefeitura trouxe consigo novas dinâmicas sobre comunicação governamental acessibilidade serviços públicos ofertados.
Entrevistas arquivadas Instituto lembram cobertura negativa veiculada pela mídia local associando conservadorismo forças políticas contrárias administração progressista instalada.
Assim nasceu D.O.Urgente versão alternativa jornalística visando informar população reproduzindo respostas governamentais frente críticas recebidas estabelecendo diálogo direto comunidade através plataforma oficial comunicação.
Essa iniciativa evidenciava tensões existentes relação centenário jornal local refletindo disputas ideológicas predominantes época.

Ao finalizar mandato alcançou impressionantes índices aprovação estimados cerca de 97%, segundo pesquisas realizadas Ibope Datafolha.
Em janeiro 1993 passou bastão David Capistrano médico sanitarista também filiado PT ambos profissionais colaboraram próximos porém relatos indicam divergências opiniões decisões administrativas futuras respeitando legados individuais encontrados durante transição política.

Afinal existem várias ações dela perdurando memória urbana contemporânea exemplo recente disponibilização cinema preços acessíveis Cine Arte Posto quatro atividades gratuitas esportivas canal seis acessíveis todos moradores resultantes decisões tomadas naquela época.

A trajetória continua

Pós-prefeitura carreira política seguiu adiante conquistando três mandatos consecutivos como deputada federal abrangendo período entre 1995 até 2007 priorizando pautas sociais interesses Baixada Santista incluindo direitos crianças adolescentes temas portuários fundamentais desenvolvimento local.

Em seguida retornou Câmara Municipal sendo eleita novamente vereadora número expressivo votos acumulados totalizando mais tarde revitalizando trajetória mandatos anteriores entre 2017 2024 disputando novamente prefeitura naquela última eleição realizada recentemente.

Um aspecto relevante notável observadores políticos quem acompanhou esses anos mesmo pertencendo oposição executiva atual sempre gozou respeito adversários políticos inclusive atual prefeito Rogério Santos demonstrando homenagens emocionantes falecimento colega próximo ambos dialogavam encontrando formas conciliar interesses divergentes parecendo utópico panorama político atual brasileiro.

Apaixonada música cultura fez única apresentação DJ Torto Bar ano 2012
Quem via eventos reconhecia garra persistente desde início histórias relatos populares recebiam aplausos calorosos habitantes locais transitando pelas ruas cidades celebrando conquistas coletivas promovidas por liderança feminina inspiradora.

Santos sem presença dessa figura icônica definitivamente não significaria ausência políticas sociais transformadoras embora nenhuma mudança depende exclusivamente indivíduo singular porém liderança ajudou traduzir vozes movimentos sociais demandas profissionais residentes decisões governamentais estruturantes identidade atual santista construída coletivamente.

Ressaltar importância representatividade gênero também se faz necessário pois permanece única mulher ocupante Palácio José Bonifácio durante quase cinco séculos história municipal inspiradora gerações futuras encorajadas acreditar espaço participação pública luta cidadã efetiva possível alcançar igualdade equitativa sociedade contemporânea brasileira.

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By Santos Diário

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