Controvérsia nas redes: livro infantil é criticado por suposta “ideologia de gênero

Certos personagens nos inspiram a alçar voo, enquanto outros enfrentam criaturas fantásticas, exploram reinos encantados e vivenciam experiências que vão além do cotidiano infantil. A prática da leitura serve como um elo entre essas narrativas, incentivando a criatividade e a imaginação a partir de novas realidades e possibilidades. Além disso, há aqueles que provocam reflexões sobre aspectos da vida, laços familiares, sentimentos e o papel de cada indivíduo no mundo.

É isso que a literatura voltada ao público infantil proporciona. Uma narrativa pode ter início entre capas de livros, mas seu destino final após tocar as mãos de um leitor é imprevisível. Pode se transformar em uma animação, conversas durante o intervalo escolar, memórias da infância ou até mesmo em questionamentos que a criança não tinha coragem de expressar antes.

Em maio de 2026, alunos do 5º ano de uma escola pública em Praia Grande tiveram a oportunidade de vivenciar essa magia ao conhecer o autor Jeff Mercadante, responsável pela obra Cadê você, Antônio?.

Foto: Livro Cadê você, Antônio?

Os alunos já haviam lido a obra com sua professora e se prepararam para fazer perguntas durante o encontro.

Os pequenos artistas desenharam, escreveram cartas e solicitaram autógrafos. Emocionada ao ouvir Mercadante compartilhar sobre a morte de sua mãe — uma experiência que inspirou o livro — uma aluna pediu um abraço ao autor. Outras crianças também demonstraram desejo por esse gesto afetuoso.

Ao final da manhã, o escritor deixou a instituição com uma nova promessa: criar “Antônio 2”, a sequência que os jovens leitores pediram com entusiasmo.

Até aqui, observamos uma narrativa encantadora sobre literatura e educação pública, marcada pelo encontro entre um autor e seus admiradores. No entanto, quatro meses mais tarde, imagens desse mesmo evento começaram a circular nas redes sociais associadas à expressão “ideologia de gênero”.

A interação que gerou perguntas, desenhos e abraços passou a ser retratada sob uma perspectiva completamente distinta. E é nesse descompasso entre o que realmente ocorreu na escola e a interpretação que ganhou força nas redes sociais que se inicia uma nova parte dessa história.

História fora do contexto

Jeff Mercadante é não apenas escritor; ele também atua como professor na rede pública e possui doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Residente na Baixada Santista, o autor já havia estabelecido conexões com profissionais da rede municipal antes do seu encontro em Praia Grande.

Durante o lançamento de Cadê você, Antônio? em Santos no mês de março, Mercadante contou com a presença de professores entre os convidados. Uma diretora e uma educadora presentes no evento conheceram sua obra e posteriormente trabalharam com ela na turma do 5º ano.

Conforme relatado por Mercadante, os alunos demonstraram grande interesse pelo livro. Em maio, ao substituir um professor afastado por licença-prêmio, surgiu a chance dele dialogar com os estudantes.

A atividade foi elaborada com base na leitura prévia realizada pela turma. As crianças formularam perguntas e se reuniram na biblioteca para explorar o processo criativo da obra junto ao autor.

“Segundo contou a professora, quando as crianças souberam que ela conhecia o autor do livro que haviam lido anteriormente, ficaram muito animadas e curiosas porque ainda existe essa percepção de que escritores são figuras distantes”, recorda o autor.

As indagações feitas pelos alunos guiaram grande parte da conversa. Algumas eram voltadas para Antônio e suas escolhas narrativas; outras revelavam como eles já haviam se relacionado com a história. Conversaram sobre a bravura do personagem e compartilharam desejos de ter coragem para realizar atividades como dançar ou gravar vídeos sobre jogos nas redes sociais.

Houve espaço também para um diálogo mais pessoal. Ao mencionar que perder sua mãe foi um dos eventos que motivaram a escrita do livro, ele tocou o coração de uma das crianças presentes.

“Foi uma manhã extremamente emocionante; um verdadeiro encontro entre crianças que haviam lido um livro e queriam discutir as emoções que aquela narrativa despertou nelas”, relembra Mercadante.

De acordo com o escritor, todos os responsáveis foram informados sobre a atividade e deram seu consentimento.

Após as aulas 

Quatro meses depois daquele dia especial, porém, as imagens desse encontro começaram novamente a circular fora do contexto original. Um story publicado pela conta @armagedom_pg descreveu a atividade como “lamentável” e “vergonhosa”. Conforme informações enviadas pelo escritor, essa publicação foi removida pouco tempo depois.

Cerca de sete dias depois disso, no dia 25 de setembro, outra conta chamada @rosana_marques.oficial postou um reel utilizando imagens do evento junto à capa do livro Cadê você, Antônio? e uma foto do autor. A legenda dizia “IDEOLOGIA DE GÊNERO NAS ESCOLAS DE PG?”, acompanhada da pergunta “PAIS, VOCÊS CONCORDAM?”.

O conteúdo apresentava tanto o livro quanto a atividade como se tivessem como objetivo ensinar ou influenciar as crianças para serem LGBTQIAPN+.

Mercadante ainda apontou que sua imagem foi manipulada por meio de inteligência artificial. Essa informação deve ser analisada comparando-se os registros originais aos divulgados; entretanto ajuda a ilustrar o impacto emocional vivido pelo autor ao ver sua figura atrelada à polêmica.(/strong>).(/strong>)

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By Santos Diário

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