Telma de Souza: a essência do povo que floresce com força

Existem personalidades que transcendem as páginas dos livros de história, pois permanecem vivas nas ruas, nas lembranças coletivas e nas emoções das praças.

A vida de Telma de Souza é uma expressão dessa resistência humana, onde a política se transforma em um ato contínuo de amor, coragem e poesia popular, deixando de ser apenas um jogo de poder.

Antes das palanques e discursos públicos, sua trajetória foi moldada nas experiências diárias da vida real, ao lado da classe trabalhadora e ouvindo atentamente os anseios das comunidades periféricas.

Foto: PT Santos

No período em que sonhar se tornava um ato revolucionário, Telma uniu-se aos movimentos sociais e às raízes do Partido dos Trabalhadores. Nos primórdios dos anos 1980, na costa do Guarujá, quatro mulheres destemidas decidiram fundar a comissão provisória do partido na cidade, respondendo à urgência por mudanças sociais.

A partir desse momento, a utopia começou a ganhar forma. As visitas constantes às casas da população eram repletas de conversas significativas e café servido com carinho. Cada nova adesão ao partido representava mais que um simples registro; era um compromisso compartilhado de que os trabalhadores deveriam ter voz ativa em seu próprio futuro.

Telma de Souza, ex-prefeita de Santos e figura proeminente na política paulista, simboliza os desafios enfrentados por mulheres que ingressaram na política institucional em épocas passadas. Durante aquele tempo, as discussões sobre violência política de gênero e machismo estrutural não tinham a visibilidade atual. O que hoje reconhecemos como misoginia e discriminação era então naturalizado e enfrentado isoladamente pelas poucas mulheres presentes no cenário político.

A análise da carreira política de Telma revela diversos aspectos desse contexto opressivo. Em suas experiências no Congresso Nacional e na Assembleia Legislativa, ela frequentemente mencionou a necessidade de se adaptar a um ambiente dominado por homens para conquistar respeito. A escolha por trajes como terninhos em vez de saias ou vestidos ilustra sua tentativa de se conformar aos padrões estéticos exigidos por um espaço controlado por homens.

Foto: PT Santos

Além dos desafios relacionados à aparência, Telma também enfrentou tentativas frequentes de deslegitimar sua autonomia política. Durante suas primeiras campanhas eleitorais, seu valor era frequentemente associado ao prestígio político masculino dentro da família, forçando-a a trabalhar arduamente para estabelecer sua própria liderança. Em seus mandatos legislativos, as interrupções durante suas falas e o desprezo pelas suas propostas eram comuns, refletindo uma visão preconceituosa que associava a presença feminina à fragilidade ou incapacidade no debate público.

A resistência institucional ao seu papel ativo culminou em agressões diretas. Um incidente notável ocorreu em 1987 quando atuava como deputada estadual; ela registrou uma denúncia formal após ser agredida fisicamente por assessores parlamentares enquanto exercia sua função oposicionista. Durante seu tempo à frente da Prefeitura de Santos e em outros cargos eletivos, episódios como esse eram simplesmente considerados “regras do jogo” ou “conflitos políticos tradicionais”. A trajetória de Telma evidencia como a falta de terminologias adequadas e leis protetivas obrigava as poucas mulheres eleitas a lutarem para encontrar seu espaço em um ambiente projetado para excluí-las.

Essa força comunitária culminou em um feito memorável para a Baixada Santista: em 1988, Telma tornou-se a primeira mulher eleita prefeita de Santos para o mandato que se estenderia até 1993.

A presença de uma mulher negra liderando a cidade em tempos desafiadores trouxe uma nova dimensão à representatividade, mostrando que as estruturas tradicionais poderiam ser desafiadas. Ao lado do médico sanitarista David Capistrano Filho, que governou entre 1993 e 1996, estabeleceu-se uma era marcada por uma gestão pautada pelo afeto radical e pela ética inabalável. Juntos desenvolveram políticas públicas tão sólidas que seus sucessores nunca conseguiram apagar os legados deixados.

Dentre suas ações históricas destaca-se a intervenção decisiva no Hospital Anchieta, infamemente chamado “Centro de Horrores”. Com firmeza e empatia, sua administração encerrou o ciclo traumático daquele manicômio, rompendo com práticas abusivas e estabelecendo Santos como pioneira na reforma psiquiátrica brasileira baseada no respeito à dignidade humana. Foi nesse espírito inovador que surgiram as Policlínicas, criando uma rede descentralizada de saúde pública focada no atendimento básico nas comunidades. Embora governos subsequentes tentassem renomear esses serviços, o povo santista sempre os reconheceu como Policlínicas devido à forte conexão emocional com quem realmente cuidou deles.

Sua gestão também foi pioneira no combate à epidemia global de HIV/AIDS. Em tempos marcados pelo medo e preconceito que marginalizavam pessoas afetadas pela doença, o governo Telma enfrentou essa crise com empatia e ciência ao implantar o primeiro programa municipal anti-Aids do Brasil. A distribuição massiva de preservativos e seringas junto ao acolhimento humanizado transformaram Santos em um modelo internacional reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), deixando para trás o estigma da “capital da Aids”.

Paralelamente a essas inovações sociais houve uma efervescência cultural sem precedentes na cidade. A cultura deixou de ser um privilégio restrito às elites para se tornar acessível a todos os cidadãos. Movimentos artísticos tomaram conta das praças e comunidades locais, reforçando as identidades caiçaras e comunitárias enquanto demonstravam que nutrir tanto a alma quanto o corpo é vital.

Nesse contexto vibrante de transformação social, os jovens santistas encontraram no governo Telma não apenas representação mas também oportunidades reais para atuar ativamente na política local. Sua administração estimulou uma juventude consciente engajada em esportes nos bairros e reativação dos grêmios estudantis através das oficinas culturais nas periferias. Essa mobilização deu voz aos jovens rebeldes da época cultivando um sentimento profundo de pertencimento entre eles.

No dia 28 de fevereiro de 1991, Telma liderou uma mobilização popular significativa contra as demissões abruptas de 5.372 trabalhadores portuários ordenadas pelo governo Fernando Collor. A cidade parou num ato histórico defendendo os direitos dos trabalhadores portuários.

Além das reformas estruturais nas áreas da saúde e cultura que realizou enquanto prefeita, sua presença no Palácio José Bonifácio representou uma virada crucial na organização das mulheres santistas. Ao ver uma mulher tão destemida liderando o município, muitas mulheres passaram a entender que seu lugar era também nos espaços decisórios.

Foto: Cidinha Santos

A criação do Fórum das Mulheres de Santos lançou as bases do feminismo popular na cidade gerando frutos duradouros visíveis até hoje através dos coletivos feministas e sociais que ocupam as ruas com determinação.

A história de Telma é um testemunho poderoso do impacto positivo quando se cultiva justiça social com amor ao povo; essa semente cria raízes profundas impossívelmente apagáveis ao longo do tempo ou sob qualquer governo.

TELMA DE SOUZA (1944-2026), VIVA EM NOSSAS LEMBRANÇAS!

Por Cidinha Santos, jornalista e ativista feminista

O post sobre Telma de Souza destaca sua força transformadora surgiu inicialmente em Juicy Santos.

By Santos Diário

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